Anjo Salvador - 05  

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Sessão 05

 

Montes Gelados - Nigallin - Rei 17 de 588E

 

 Os cadetes esporeiam seus cavalos pelo caminho o mais rápido que a segurança lhes permite. O caminho é pedregoso e coberto de neve velha de vários dias atrás, mas permite que sejam relativamente céleres. Pelas diversas curvas e subidas do caminho passam por mais torres de vigia destruídas e mesmo por cavalariços da Brigada que não os param, e que parecem sim estar assustados e fugindo da batalha. Conforme os minutos passam eles cruzam com mais dessas almas, alguns mesmo a pé, quebrando formação e abandonando seus postos em favor de suas vidas.

 

Eventualmente a grande fortaleza se avultua perante eles. Drakenmont fora um castelo grande, cercado de uma cidadela e uma cidade fortificada. Os prédios eram da mesma pedra cinza da montanha, fazendo uma pequena cidade com prédios de dois ou três andarem em um estilo duro e rústico diferente do estilo de Eimland. Muitos deles estão ruídos com o tempo, incluindo suas muralhas e pavimento, mas tantos outros estão queimados e chamuscados, marcas enegrecidas que não saem com o toque, tendo marcado a própria pedra, dando força à assustadora história de que o local foi destruído pela ira de um dragão.

 

É possível notar que nos portões frontais ocorre batalha. Por volta e meia o disparo de um mangonel acerta uma torre ou aparente fortificação, bem como magias elementais acertam onde besteiros ou conjuradores se escondem. Na saída de trás da cidade há mais caos entre os feridos da Brigada, conforme vários abandonam as fortificações para tentar a sorte nas rotas de suprimentos.

 

“Adentrar pelos portões traseiros alertará a todos que estamos aqui”, informa Fernando, que retorna do trabalho de batedor.

 

“E correríamos demasiado risco caso postássemos nossas cores de lado e nos passássemos por brigadianos”, adiciona Elizabeth. “Caso sejamos tomados de assalto pelos soldados das Ordens...” ela começa, mas decide não se calar, “...em seu zelo nos ceifariam antes que pudéssemos nos explicar.”

 

“Eu tomei a liberdade de espionar esse local de antemão”, diz Marjorie, chegando à cavalo. “Existem cisternas que antigamente guardavam água para caldeiras. Minhas visões indicaram que elas possuem uma entrada oculta, e acabo de retornar de lá.”

 

“...se tomarmos esse caminho podemos evitar a atenção dos brigadianos, nos infiltrar na cidadela e resgatar Meline, sem o conhecimento das Ordens”, conclui Lian, em aprovação à Marjorie.

 

“E talvez evitar a punição por desobediência”, adiciona desconfortavelmente Elizabeth para a silenciosa concordância da maioria.

 

“Guie-nos, Marjorie”, ordena um determinado Lian.

 

***

 

“Alguém vai ter que cuidar dos cavalos”, diz Marjorie, apontando com a espada os fugitivos roubando os cavalos que são capazes de encontrar para abandonar o local, “ou não conseguiremos sair daqui”. A jovem diz enquanto a saída oculta, parcialmente ruída, se fazia perante eles. “Encontre ela, lorde Calhart”, completa, segurando o antebraço de Lian.

 

Eles então seguem pela entrada secreta, subindo pelas entranhas da cidade abandonada e evitando assim cruzarem com forças de reserva da Brigada; não estão uniformizados com as cores de Nigallin ou Honorest, nem tem o porte ou equipamento de um membro da Brigada; ambos os grupos podem assumir que são inimigos. Logo fica claro que as Ordens mandaram muitas tropas para essa batalha, e que no meio do cáos absoluto a melhor chance que possuem é encontrar o comandante Johelm antes que ele faça algo com Meline.

 

***

 

Uma janela coberta com madeira velha explode com um homem que é arremessado. Atrás dele partem Hector e Mildred, que desmaiam o homem e o arrastam de volta para dentro da pequena construção. Os cadetes se encontram nos esqueletos de um prédio que um dia foi parte da cidadela de Drakenmont, prédio que escondia a entrada para os níveis inferiores.

 

Com os três homens caídos, os cadetes voltam-se para um jovem que não chegou a sacar suas armas. Lian e Ian o prensam contra a parede, demonstrando pouca paciência ou piedade, tão cruéis e determinados quanto o resto dos Calhart.

 

 

O jovem, talvez recém completado a maioridade com seus 15 anos, está manchado de sangue no rosto e diz que é apenas um aprendiz de ferreiro. O que ele tem a dizer é pouco, que as tropas haviam fortificado os portões frontais mas que a Ordem chegou com grandes números, juntos com as forças de Honorest, e a batalha estava perdida mesmo antes de começar. Ele jura por sua vida que não sabe de nenhuma refém pois é um mero aprendiz de ferreiro, e apenas implora para ser deixado ir embora.

 

Perante a pressão dos dois cadetes que ameaçam o jovem à beira das lágrimas, Fernando se pega desgostoso com aquilo tudo. O feiticeiro abaixa as armas e meneia a cabeça, incrédulo com o que observa.

 

Enquanto o jovem deixa claro que nada lhe era informado, e que ele era apenas um simples trabalhador junto da brigada, os cadetes conseguem captar que as últimas forças concentraram-se nos portões, e que os líderes restantes estavam fortificando o Forte original. Se alguma refém nobre fosse ser levada para algum lugar, seria para lá. Claro que o problema que encontram é o fato que um Forte é feito para não ser perfurado, então a única entrada, a frontal, não serviria aos seus propósitos, para a consternação de Ian.

 

“...há uma saída oculta”, murmura Hector, que observa o forte à distância.

 

“Drakenhart?”, indaga uma surpresa Mildred.

 

“Um forte é feito para resguardar... proteger. Mas nenhuma armadura é feita apertada demais ao ponto que sufoque seu usuário”, ele diz, para a concordância de Fernando. “Na pior, mais terrível hipótese da brecha de um cerco, deveria existir uma rota de fuga para o monarca... ou para seu descendente. O rei morre, mas seu sangue vive.”

 

“Mas uma entrada dessas... seria oculta mesmo quando a fortaleza estava de pé. Quem dera agora, esquecida pelo tempo”, levanta Elizabeth.

 

“Nem todos tem memórias tão curtas quanto nós homens”, diz Fernando, que a tempos não se pronunciava. “A pedra desse local ainda se lembra, e as fagulhas do passado ainda vivem. Elas nos darão as respostas que precisamos.

 

***

 

Dentro de uma construção a muito ruída e abandonada, três “blocos” longe dos muros do Forte, os cadetes encontram em seu porão um poço a muito seco. Fernando havia convocado uma centelha, pouco mais do que uma fagulha de energia e emoção, e o ordenado a lhes revelar o caminho para dentro da fortaleza. O quase invisível espectro os guiara até esse local, para um poço falso cuja parte baixa continha um pequeno túnel estratégico que conectava ao Forte.

 

“Eu ficarei de vigia, e salvaguardarei a rota de fuga”, afirma Elizabeth. “Vão, e sejam céleres. A batalha se avulta sobre nós, e logo não haverá tempo para evitar as consequências de nossa rebeldia.”

 

***

 

Saem do caminho nos antigos estábulos da fortaleza ancestral. À frente, uma praça central que é o centro de uma guerra. Dezenas de homens das Ordens enfrentam outras dezenas de homens da Brigada em uma desordem absoluta. Uma lanceira de Honorest crava sua lança na garganta de um garoto da Brigada, enquanto um rufião de machado coloca o medo de deus no coração dos cavaleiros da Ordem a sua volta, enquanto um homem da brigada abandona honra e tática e golpeia diversas vezes com seu elmo o rosto de um soldado da Ordem com quem rola no chão.

 

Mas a Brigada está perdendo, já tendo sido cortada do acesso ao pátio frontal do castelo, onde de longe são capazes de ver os cavaleiros da Ordem, incluindo Elbrich no comando. Lá é possível ver forças da Brigada mortos, com um grupo misto de soldados de Honorest e Nigallin liderados pelo próprio Cavaleiro Devoto. Do outro lado do pátio, atrás de fortificações de madeira, as tropas da Brigada ameaçam seus inimigos, e o homem de barba e cabelos escuros e espessos, Johelm, tem espada em riste e a pobre Milene sendo usada como escudo humano.

 

“Não há para onde fugir, Johelm. A Brigada está em frangalhos e teus portões caíram”, esbraveja, solene, Elbrich Calhart.

 

“Meia-volta! Rápidos como o vento, ou o sangue dessa garota irá banhar de rubro a neve que cai!”, ameaça o homem de armadura preta.

 

“Meline!”, grita Ian, se esforçando para se aproximar, mas sendo segurado por Mildred e Fernando, os sons da batalha bem como a distância deles afogando todo som.

 

“Acalma-te, Ian”, diz um pouco confiante Lian, tentando medir a situação.

 

“Diabos! Eles estão aqui? Como lidaremos com isso sem sermos notados pelas Ordens?”, xinga Mildred.

 

“Parece que o tempo de subterfúgio é passado, irmã, e teremos de enfrentar as consequências de nossos atos”, diz solene Fernando.

 

“Não testem minha paciência! Essa fortaleza tem tanta pólvora guardada que seria capaz de mandar todos vós para o lar do Criador se não forem céleres em sua retirada!”, grita novamente Johelm, chamando a atenção dos cadetes, que se encontram anexos à fortaleza quase destruída

 

“A Ordem das Lâminas Gêmeas não se curva perante a ameaça de bandidos como ti”, responde o cavaleiro galante.

 

“Retirem-se de uma vez! Ou o sangue dessa ovelha estará em suas mãos, Elbrich Calhart!”

 

“Isso não muda nada, rufião!”, responde o general.

 

“Lorde-comandante, mais inimigos tentam fugir pelo Passo. Dois grupos, talvez três. Uma figura que parece Algus está entre eles, senhor!”, interrompe um mensageiro que ali chega.

 

“Muito bem, nós iremos encontrá-los. Preparem os cavaleiros, a última cabeça dessa vil Hidra será cortada hoje, homens, e eu mesmo acabarei com Algus!” Ele então se vira para o grupo de soldados ali, e os cadetes podem reconhecer Reiny como um dos soldados do grupo de Honorest, e faz um gesto de cabeça para ele. “Pyle, faça valer o nome de Honorest e limpe o lugar. Não deixe um cão sarnento de pé!”

 

“Com prazer, milorde!”, responde Reiny, conforme Elbrich e os cavaleiros esporeiam seus cavalos para interceptar os fugitivos da batalha. O jovem de Honorest dá ordens rápidas para seus homens, pega a besta de um dos besteiros e dispara.

 

Johelm, que não estava atrás de cobertura alguma e apenas usava Meline como escudo, mesmo na mira de cinco besteiros, é pego de surpresa quando o virote acerta mortalmente a irmã de Ian, que cai de joelhos e então ao chão, a cor deixando seu rosto. Ele mal tem tempo de murmurar “...Alene...” quando Reiny imediatamente ordena “Agora!”, e seus besteiros disparam todos ao mesmo tempo, acertando o tenente-comandante da Brigada.

 

Ian presencia a cena, e junto de Lian grita a plenos pulmões quando Reiny acerta Meline. Ian solta-se de seus amigos e corre na direção de Reiny, com Lian tentando fazer o mesmo mas sendo segurado por Hector.

 

“A batalha está perdida, Calhart! Nos retiremos com que ainda temos, antes que mais baixas se façam no dia de hoje!”, esbraveja o tenso Drakenhart.

 

“Ian! Eu... eu não posso deixa-lo! Ele vai matar Reiny!”, exclama Lian, se soltando e partindo atrás do companheiro. “E com isso estará pondo um fim à própria vida!”

 

“Diabos...”, xinga Mildred, que observa a cena e então saca as duas espadas curtas das costas. “Segure esse tolo!”, diz ela apontando para o ferido Hector. “Eu vou proteger aquele tolo!”

 

Hector, por sua vez, apenas meneia a cabeça.

 

 

***

 

Ian corre em direção ao pátio, mas para quando Reiny ordena os soldados das Ordens a chocarem-se contra os remanescentes -e agora devidamente desesperados- soldados da briga, e volta a ameaça bem real de vários besteiros apontando armas para os dois.

 

“Aonde tu pensas que vai, Ian?”, diz Reiny, lhe apontando a espada.

 

“Seu filho de uma meretriz. Eu irei cortar sua garganta!”, grita Ian, dando passos duros em sua direção, espada em riste.

 

“Ah, isso será uma luta então? Decidiu mostrar tua face traidora e voltar tuas espadas contra a Ordem? Que seja, filhote! Eu irei te mostrar que sangue comum não gera nada além de um homem comum!”, e deixando os besteiros ele se choca com Ian, gerando uma luta de três partes entre os cadetes, os soldados das Ordens e os homens das Brigadas.

 

Os dois homens chocam-se com voracidade, claramente tencionando causar mal um ao outro. Não apenas estão em lados diferentes de um embate, como claramente se odeiam, e seus golpes deixam isso claro.

 

“Tu és louco, sangue-ruim! Tu planejaste isso, fizeste de propósito pelo teu ódio ao povo simples!”, é possível mais ou menos entender Mildred entre berros e desvarios incompreensíveis, protegendo Lian e Ian dos diversos outros soldados em volta.

 

“Tu pagarás por teu ódio, Reiny!”, esbraveja Lian.

 

“Eu apenas segui as ordens de seu lorde irmão, Lian. O que tu desejavas? Que nos curvássemos e oferecêssemos a honra da Ordem em troca da segurança de uma garota de taverna qualquer?”, grita Reiny, lutando junto dos homens de Honorest e evitando os golpes de Ian e Lian.

 

“Não fale assim dela, Pyle! Ela é minha irmã!”, esbraveja Lian, controlado pelas emoções e não lutando direito devido a isso, antes de levar de um soldado de Honorest um soco no rosto que lhe faz perder o equilíbrio.

 

“Já não é chegada a hora de acordar para o fato que nós somos diferentes deles? Eles são de nascimento inferior, e por causa disso destinados a terem papeis inferiores nessa vida! A culpa não foi minha; o plebeu e sua irmã nem deveriam estar envolvidos nisso tudo! Se eles estivessem cuidando de cavalos como seus pais os ensinaram, ao invés de fingirem-se de nobres, a garota não teria sido confundida por uma aristocrata, nenhum deles teria que ter passado por isso, e ela ainda estaria viva!”, grita ele, subindo as escadarias do castelo e colocando-se por trás de seus homens.

 

“Nem toda a nobreza é podre como ti, Pyle!”, esbraveja Ian, bloqueando os golpes dos cavaleiros.

 

“Ian! Acalme-te!”, grita Lian, antes de virar-se para Reiny. “Tu pagarás por isso, Pyle!”.

 

“Poupe-me de tua ladainha, Lian! Tu és um Calhart, queira ou não! Tua é uma linhagem de campeões, de lordes entre os homens! Realizar grandes feitos é teu destino, é teu dever. Há muito que não pode ser realizado nesse mundo, exceto por mãos governantes como as suas. Cabe a ti agir onde nós, meros mortais, não podemos. Olhe bem para mim, olhe bem para teus companheiros e irmãos em armas. Famílias que dançam a gerações a dança dos Calharts. Uma dança que serve nossos propósitos, é claro; o nome Calhart é a égide deles, o escudo que permite que prosperem, a mão que os alimenta! E você volta-se contra essa Égide em benefício de meros plebeus!”

 

É nesse momento que Lian deixa a luta, ele bloqueia um último golpe e dá alguns passos para trás, confuso e tentando raciocinar as palavras. Olhando em volta ele vê seus companheiros, e Ian na frente de tudo, ferozmente batendo-se contra os cavaleiros, tentando abrir caminho para Reiny. Sem ver outra resposta, Lian avança por entre os soldados e ataca Ian, com golpes rápidos de pomo e não letais o surpreendendo, tentando o tirar do embate para desarmar a situação.

 

Os outros ali presentes ficam confusos com a atitude, e Mildred grita, evitando um golpe “Enlouquecestes de vez, Calhart???”.

 

“Abaixem as armas, eu disse! Ian, cesse!”, ele grita para o colega, que cambaleia evitando os golpes.

 

“Não! Eu irei acabar com você reiny!” e então vira-se para Lian, os olhos cheios de lágrimas e o semblante de um homem descontrolado. “E depois eu irei acabar contigo, traídor!”.

 

Talvez querendo deixar claro seu ponto, talvez realmente se sentindo ameaçado, ou talvez confuso como uma criança, Lian não admite a ameaça de Ian, e os dois continuam se chocando em um duelo de quatro espadas. Um dos cavaleiros aproveita a vantagem e atravessa sua espada pelo peito de Ian, que cospe sangue e vai ao chãos, de joelhos.

 

“Calhart! Maldito!!!”, grita Mildred, que abandona seus oponentes para saltar sobre Lian. A espada voltada ao pescoço é aparada, mas não a joelhada voadora em seu queixo. O jovem calhart perde o equilibrio e logo se vê preso por uma chave de braço de Mildred, que aperta seu pescoço com ódio. “Louco traidor!!”, ela grita, ao ponto que até mesmo Fernando corre até eles para separar a luta.

 

“Te entristece, Ian, ver toda a verdade de tua fraqueza perante ti? Nenhum simples plebeu é capaz de deixar sua marca na história! Você não tem o poder para tal; compreenda-o e lamente-o, pois é tudo que é capaz de fazer, e muito mais do que merece!”, diz Reiny, rindo da situação e se aproximando do ajoelhado e ferido Ian.

 

“Tua língua bifurcada terminou de flertar? Não são palavras que desejo ouvir saídas de tua garganta...”

 

“Risada, então? Pois isso tu ouvirás em breve, sangue-comum! Abaixe a cabeça perante seus melhores e termine no anonimato de onde não deveria ter saído!”, diz, erguendo a espada.

 

“Ninguém me ordenará... Nem você, nem ninguém...”, fala Ian, desafiador perante a morte.

 

Mas tal morte não chega, pois enquanto era sufocado vivo por Mildred, Lian consegue observar Fernando aproximar-se do embate, seus olhos brilhando e um feitiço sendo conjurado sob sua espada.

 

“CESSEM!”, o feiticeiro berra, e uma onda de choque e vento empurra os soldados próximos, jogando a maioria ao chão e afastando os combatentes.

 

Caído no chão de um lado, observando uma cansada Mildred tentando se erguer do outro, e um ensanguentado e moribundo Ian do outro, Lian fumaça saindo do castelo, e logo a terra treme. O tenente-comandante não estava blefando, e logo pequenas explosões se fazem dentro da fortaleza.

 

“VAI EXPLODIR!!!”, grita Hector, de longe.

 

E então a cidadela toda vai pelos ares.

 

***

 

“Eu vivi minha vida da única forma que sabia vivê-la. Mas quando os pilares que a sustentavam racharam perante meus olhos, eu não permaneci para observá-los ruir. Eu dei as costas. E fui embora.”

 

***

 

 

Monastério de Gofren - Fronteira de Himline - Ladrão 12 de 589E

 

“Então foi assim que o conheceu...”, fala baixo comandante Zackary Le’Berry, terminando de limpar o sangue do nariz quebrado. A sua volta os outros mercenários ouviam a história de Lian, enquanto o batedor Ivdan e o selvagem Verner foram buscar os cavalos na floresta.

 

“Sim sir. Eu tenho certeza que era ele. Só não sabia que ele tinha sobrevivido...”, responde Lian, o olhar distante.

 

O guerreiro Cormac encara Lian com estranheza, mas se algo pensa não o divide com os demais. Não demora para que de dentro do monastério saia o cavaleiro do dragão Dryfolk, meneando a cabeça.

 

“O cavaleiro capturado se recusa a falar. Ele passa bem, milady”, e faz uma mesura para a capitã Karissa.

 

De dentro também sai a cavaleira do dragão Katherine, que salvaguardava a princesa, com a nuca e pescoço ensanguentados do golpe que levara e a desmaiara.

 

“Eu falhei, milady”, diz amargurada a jovem Katherine.

 

“Todos falhamos”, responde lady Karissa.

 

“Eu especialmente milady... eu não...”, tenta responder Katherine.

 

“Não viu um golpe covarde por tuas costas, pequena”, diz dama Alissas, próxima.

 

“Ele carrega a princesa consigo. De certo não chegará longe”, diz a capitã, cobrindo a cabeça com um capuz de viagem.

 

“E tu tencionas persegui-lo?”, se mete o comandante Le’Berry.

 

“E o que mais? Eu não retornarei para a Coroa em desgraça!”

 

“Pois não terá ajuda nossa. Nosso contrato não mencionava nada sobre perseguições”, ele diz, olhando para seus companheiros Cormac, Alan e Ivdan.

 

A capitã cirra os olhos. “E eu não aceitaria vossa ajuda nem que a oferecesse, lorde. Um verdadeiro cavaleiro é jurado à justiça. Ele defende os indefesos. A Guarda do Dragão irá cumprir seu dever; com vosso apoio, ou não”. O cavaleiro Dryfolk meneia a cabeça, observando a situação.

 

É então que Verner se aproxima do grupo, tendo encontrado os cavalos na floresta. Ela chama atenção de Le’Berry e descreve como além de seus cavalos, exceto um que se perdeu mesmo, eles também encontraram algo peculiar: Dois cavalos estavam corretamente amarrados na floresta, não muito longe da colina do monastério, e dois soldados armados e portando as cores da Ordem da Lótus estavam próximos, assassinados, um com a garganta cortada e outro trespassado pelo peito.

 

“Capitã, talvez devêssemos reavaliar a situação...”, começa Dryfolk.

 

“Tolice Dryfolk, podemos lidar com isso sozinhos”, responde Lian, selando o cavalo.

 

“E quanto nos custaria vossa ajuda, comandante?”, pergunta Dryfolk, que se aproxima dos mercenários. Do cavalo Karissa os observa com uma expressão de poucos amigos, seu orgulho ferido demais para implorar ajuda dos mercenários.

 

“Vós desejais vingar Willian, não é mesmo?”, fala de lado Le’Berry, olhando para o corpo morto de Willian, sendo cuidado pelos padres.

 

“Evidentemente.”, responde Cormac, altivo.

 

“...demônios...”, ele bufa, e então se vira para o cavaleiro do dragão. “O dobro ou nada”, e invoca um sorriso pouco disfarçado de Ivdan.

 

“Ultrajante...”, murmura Alissas, seu cabelo loiro claro caindo molhado na face.

 

“Pois bem, lorde. Receberás o dobro, tão logo tenhamos a princesa em segurança”, finaliza Dryfolk, antes de montar em seu cavalo.

 

“Comandante”, inicia Cormac, falando baixo. “Os tipos de “vida fácil” de Larássis certamente saberiam de um sequestrador.”

 

O comandante ergue uma sobrancelha, mas logo encontra o olhar vidrado e insano de Verner, que faz com os lábios as palavras “ele sabe”.

 

“Muito bem preguiçosos, montando! Não estamos sendo pagos por hora, e temos um bom caminho até Larássis, descobrir para onde o amiguinho de Lorde Calhart foi! Ivdan, tome o caminho que viemos e avise Edward e Léria”, ele ordena, e então puxa o homem de lado “e diga para Sipha entregar um saco de moedas à garota de William. Ela sabe o que fazer.”

 

E com risadas e olhares maldosos os mercenários montam, deixando os cavaleiros do dragão enojados e Lian com seus pensamentos...

 

***

 

“Palavras não eram suficientes, pois elas não marcaram a terra, não marcaram sequer um homem. Digo a ti irmão que não mereço esse nome que carrega pois ele é marcado por luxúria e hipocrisia e além de tudo ignorância” - Lian

 

“Sabe Omen, não importa o quanto tempo passe, a verdade sempre é a mesma, o predador sempre será o predador, e a presa sempre será presa, sempre existiram Pyles, sempre existiram Ians, e pegos por esta tempestade pobres Lians e Melines, arrastados pelo vento e sofrendo nessa eterna luta entre presa e predador. Coitados.” - Verner

 

“Como és tolo este jovem garoto. Apesar dos invernos que viveu, foi tolo de fazer este tipo de escolha. Serás que este jovem, arrogante, prepotente e tolo, és capaz de sobreviver aos seus próximos anos, principalmente com o fardo de sua culpa?” - Alan

 

“Depois de ouvir essa história, tenho mais certeza do que nunca. Estamos aqui há 3 gerações. Nunca pisei na terra dos meus ancestrais, mas mesmo assim, pertenço a eles, porque não consigo me identificar com essas almas voláteis, os chamados nobres, da terra em que nasci e cresci, mas a qual não pertenço.” - Katherine

 

“Obrigado, Patriarca, por permitirdes que estes olhos vislumbrem o destino deste tolo que não compreende os caminhos do mundo em que vive” - Cormac

 

***

 

Regiões rurais de Larássis - Honorest - Ladrão 12 de 589E

 

 

Em um celeiro de região rural, um homem de armadura preta e braços cruzados recebe um contratante, um homem bonito, de gelados olhos azuis, portando a armadura dourada e o a longa tabarda encapuzada púrpura dos Cavaleiros Divinos.

 

“E quem deve receber uma adaga nas costas?”, pergunta o bandido.

 

“Um grupo vindo do monastério ao sul. Cinco cavaleiros da Guarda do Dragão”, responde o cavaleiro altivo.


“Guarda do Dragão tu diz? Heh, não vai lhe sair barato.”

“Uma bolsa de 500 moedas de ouro por cabeça”, responde o cavaleiro.

 

“É ouro que me falta, não bom-senso, milorde”, chacota o bandido. “Duas mil moedas, ou tu podes enfiar uma adaga neles tu mesmo.”

 

“Talvez tu esqueça a rapidez com que alguém é marcado como herege...”.

 

“Ameaças, então?”, o homem descruza os braços “Mil.”

 

“700. Não posso oferecer mais.”

 

“Feito”, diz sorrindo, “Que não seja dito que sou algo além de um homem Fiel à Igreja.”

 

“Eu oro para que sua nova fé não torne-se piedade”, diz serenamente o cavaleiro. “Eles devem passar por essas terras em breve, e tremo em pensar em teu destino caso algum deles sobreviva. Lide com isso, e o faça bem”, completa, em tom ameaçador, sempre oculto pelo capuz.