Faychell – o xadrez das fadas  

Posted by raphael coradin in

Faychell – o xadrez das fadas





Faychell é principalmente jogado pela nobre; o jogo contem peças animadas.  Apesar dos plebeus jogarem uma versão falsa do Faychell na qual as peças são inanimadas, uma punição comum  aplicada pelos nobres em plebeus é ser usado como peça viva de Faychell.

O jogo possui  16 peças , seus movimentos podem ser lineares ou diagonais , o dano varia conforme a moral de cada peça, na versão de plebeus é jogado um numero de dados de seis lados  igual ao dano Maximo da peça, os dados que caírem de 4 para cima contam como dano.


Regras
O jogo possui  16 peças , seus movimentos podem ser lineares ou diagonais , o dano varia conforme a moral de cada peça, na versão de plebeus é jogado um numero de dados de seis lados  igual ao dano Maximo da peça, os dados que caírem de 4 para cima contam como dano.
Iniciando o jogo: no inicio do jogo a tropa mais bem motivada pelo discurso iniciam o jogo,na versão para plebeus isso é representado pelo jogador que conseguir o maior resultado no dado de seis lados.
Moral: tropas bem motivadas claramente lutam melhor, na versão do jogo para plebeus isso conta como +2  no resultado final do dado para tropas heroicamente motivadas,+1 para tropas bem motivadas, 0 para tropas medianamente motivadas,  -1 para tropas desmotivas, e -2 para tropas  devastadas.

Trods: os trods podem ser usado uma vez, ao usar um trod a peça escolhida se teletransporta para um espaço vazio  correspondente a cor do quadrado em que o trod se encontra.
A distancia: a peça consegue atacar até 2 casas para frente, algumas peças como o arqueiro e o mago atacam apenas corpo a corpo e quando corpo a corpo com outra peça devem  desengajar da peça adversária:

Ataque por trás: o ângulo das peças é relevante no sentido que a peça que se encontra de costa em relação a um inimigo leva dano total automaticamente, porem se essa estratégia for  usada com frequência.

Perca de tropas: quando as peças veem seus amigos e companheiros de batalha morrer aos montes elas perdem moral, na versão do jogo para plebeus a cada 3 peças de vantagem  o exercito rival  perde 1 de moral, ou cada vez que um dos cavaleiros morre se perde 1 de moral.

Turnos
Movimento: o jogador pode mover  até três diferentes peças.
Ataque: o jogador pode atacar até duas vezes com diferentes peças, todas elas podem atacar em diagonal com exceção das peças que atacam a distancia.

Peças e suas movimentações
8 guardiões- tem 1 de vida, causa até 1  de dano,  anda 1 casas linearmente.
2 arqueiros- tem 1 de vida, causa  até 1 de dano  distancia, anda 2 casas em diagonal.
2 escudeiros- tem 3 de vida, causa  até 1 de dano, anda 2 casas linearmente .
2 cavaleiros – tem 2 de vida, causa até 2 de dano, anda 3 casas em diagonal.
1 mago – tem 1 de vida, causa  1 a 2 de dano a distancia ,anda 1 casa linearmente ou em diagonal.
1 rainha ou rei-  4 de vida, causa 1 de dano a distancia ou corpo a corpo, anda 1 casa linearmente ou diagonal.


Dicas
Mantenha suas tropas bem alimentadas: Guardiões se contentam com comidas simples como farelo de pão,arqueiros geralmente preferem grãos , cavaleiros gostam muito de frutas, magos não precisam comer mas não negam bebidas enquanto o rei ou rainha preferem comidas mais caras como pequenos pedaços de queijos, carnes e vinho. Na versão de plebeus isso é representado pela comida trazida por cada participante para compartilhar entre observadores e jogadores.

Motive suas tropas: As tropas adoram discursos inflamados sobre gloria e  vitorias, lembrasse sempre de fale-los pelo menos uma vez  a cada batalha.

Enterre seus mortos: lembre que cada peça possui uma própria historia e cada uma delas merece um enterro digno, pelo menos representativo, na versão de plebeus enterrar os mortos leva um turno de movimento inteiro e quando existem três ou mais mortos no campo eles as pelas perdem 1 de moral.

Se vista de acordo: um verdadeiro general se veste como um general, por tanto estar pomposamente vestido sempre ajudara para moral das tropas.

BL - Diário Final  

Posted by Diego Erik in



Sessão 31 - Última Sessão


Rainha 11, 14 4e

Diário,

Chegamos a irritaria desde jeito quebrado: Cibele acordou mas estava fabril devido ao ferimento infectado que não temos como sanar porque nossos implementos médicos foram queimados junto com as barracas; Lavínia suava frio de dor e febre devido a sua bacia quebrada. Ela acirrava os dentes e não se queixava, mas a dor era exponencial a cada hora e ela, mesmo se curando rápido, isso não diminuía a sua dor; Helgraf e Medeia se seguravam entre a vida e a morte, e a qualquer minuto qualquer dos dois poderia morrer; Cibele estava acordada, mas distante e efêmera, mais branca que o normal pela perda de sangue e dor do ferimento que parecia começar a infectar.

Somente eu e a rainha, que olhava aterrorizada para os feridos e lembrando do aberrante, estivemos conscientes para seremos recebido por uma perplexa guarda irritariana e um assustado cônsul Pol Afreè;

Meus amigos estão em cama agora, levados a uma grande e bela casa no centro da cidade que servia de embaixada para Hamask, sempre acompanhados por guardas de Hamask e soldados da cidade, que nos acompanhavam a distância, num misto de receio e de ódio, quando apontados a mim.

Irritaria continua como eu lembrava, seu caos, sua cultura multicultural, seu cheiro a ave e a fumaça. Quantos dias eu passei aqui? Depois de passar tanto tempo em Hamask, esta cidade parece enorme, e ela é.

Diversos agentes do governo vem a falar comigo, e não escondem a hostilidade que tem com a ordem do dragão. Diversos deles, em diversos momentos, me dizem coisas como “eu não pensava que você nos trairia” ou similares. Eu sei que isso vem do sangue quente tão corrente nesta cidade, e não me altero, apesar de estar incomodada.

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Rainha 13, 14 4e

Diário,

Cibele e Lavínia estão acordadas e de pê. A sacerdotisa de Nayurai novamente comprova sua absurda habilidade de cura, enquanto Cibele, agora alimentada e com o seu ferimento costurado, recuperou a cor e o ânimo.

Ela olha para fora da casa com admiração. Inclusive, e contra todas os avisos meus e dos excelentes fisiólogos arranjados pelo cônsul Afreè, ela até mesmo subiu no teto da casa para ver sua cidade ao luz do sol.

Ela se maravilha com isto e seu ânimo também transmite para a Rainha Elevia. Eu não prestei muita atenção a ela nos últimos dois dias que estamos aqui, e parece que ela desistiu de tentar fazer companhia, e limita-se a ter longas conversas com o cônsul Pol Afreè, que, amante desta cidade como é, ficou animado quando foi informado que nossa missão era tentar traçar um cessar fogo. Estou preocupada e atarefada.

Helgraf e Medeia estão muito mal, e nem os fisiólogos, nem eu nem Lavínia conseguimos fazer muita coisa. Enquanto Medeia certamente não levantará em alguns meses, devido aos ferimos, nós precisamos de Helgraf de pé para dirigir o ato diplomático.

Eu recorro a contatos meus junto com os Sonhadores Mágicos, e consigo o contato de uma alquimista que eles afirmam que podem me ajudar. Joffrey, um alarani alto e esquisito, poderia ser chamado de muitas coisas, mas menos de um Sonhador Magico, e mesmo com toda a situação conturbada com Hamask, ele não coloca objeções em me ajudar.

Eu nunca fui, oficialmente, uma sonhadora. Me disseram que sou chamativa demais, indiscreta demais, mas sempre fui uma aliada deles. Durante anos os Sonhadores Mágicos vinham até mim e contavam problemas que precisavam de intervenção, geralmente coisas que envolviam defender pessoas, combater a corrupção, lutar com cultistas.

Esses anos parecem tão distantes agora. Mesmo Joffrey, uma alarani, parece anos mais velho.

A alquimista, chamada de Feoria, viria amanhã para conversar conosco.

Espero que ela realmente consiga ajudar Helgraf, porque sem ele, qualquer paz que desejamos estará comprometida.

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Rainha 13, 14 4e

Diário,

A senhora Feoria é uma pessoa incrível!

Uma dakhani de bastante idade, ela possui uma lucidez invejável, e uma sabedoria da qual só tocamos a superfície. Ela se apresentou como uma apotecaria e uma herbalista. Ela nos explica que as plantas e a natureza possui muito poder de cura que muitos se esquecem, especialmente perante o brilho das curas magicas.

Ela diz que as vezes o único diferente entre o veneno e a medicina é a concentração. O ditado é comum, mas vindo dela, parece como se carrega-se conhecimento extra. Ela tem olhos vivos e amarelados que brilham por trás de suas muitas rugas.

Eu explico a ela a situação de Helgraf, e ela explica que conhece o homem. A fama do arauto o precede: um caçador de bruxas, um devoto do criador, um sobrevivente do toque de Ekaria.

Ela trouxera consigo uma poção especial, que nos revelou sendo um misto de ervas raras e sangue negro de servos de Ekaria. Antes que pudéssemos nos opor, ela afirma o objetivo da poção: Os corrompidos possuem capacidade de cura muito poderosa. Não são raras as histórias de corrompidos que são gravemente feridos, somente para voltar depois vivos, tendo transformado ferimentos letais em cicatrizes.

A ideia da poção era chamar esta habilidade dentro de Helgraf, visto que ele ainda tem algo de corrupção dentro de si, para que ele pudesse curar as feridas que a habilidade de cura de pessoas normais não seria o suficiente. Em outra pessoa seria o mesmo que enchê-lo de corrupção e vê-lo morrer, mas com a situação de helgraf ela poderia curá-lo. A poção, todavia, poderia mata-lo também, então a senhora Feoria deixa a nossa escolha, sorri amavelmente, e se vá, nos desejando a melhor das sortes.

Para mim e para Lavínia não havia muita dúvida. Lavínia colhe a poção e faz Helgraf beber sem hesitação. O homem tosse, como se o corpo reconhecesse o veneno que fazia parte da poção, mas a sacerdotisa é hábil e o faz beber tudo. Não é de agora que penso isto, mas Lavínia é realmente uma curandeira muito mais hábil que eu, a única diferença entre nós são os anos a mais de experiência que tenho, mas não há dúvida que em algum tempo ela será muito melhor do que eu!
Helgraf começa a falar e a se remexer como se tendo pesadelos, e deixamos ele, preocupadas que a medicina seja a toxina, e percamos ele para sempre. Mas o Criador o protege. 



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Rainha 16, 14 4e

Diário,

Foi designada o concilio com o Rei Adiran Alexandria de Irritaria e seu concelho para daqui alguns dias, que serão tensos a medida que esperamos que Helgraf acorde e fique bem.

Ele ainda não morreu, então eu, Lavínia e Cibele concordamos que ele provavelmente acordará, só resta saber quando.
O cônsul Afreè se oferece para nos garantir vestimentas apropriadas para a ocasião e coloca seu corpo diplomático para enfrentar as distintas camadas de diplomacia que são precisas para o concilio.

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Rainha 18, 14 4e

Diário,

Helgraf acordou hoje!

Lavínia me diz que ela estava escrevendo em seu pergaminho, meio dormindo, quando o homem acordou. Ele já tinha aberto os olhos e até falado quando ainda neste estado de pesadelos, mas desta vez ele estava consciente.

E embora estejamos realmente alegres por nosso arauto ter acordado, as visões que ele traz são perturbadoras.

Ele diz que quando estava desacordado, teve visões terríveis, como se sua mente viajasse pela conexão mental de Ekaria. Ele fala de visões perturbadoras, como se estivesse vendo através dos olhos de corrompidos, sentindo o que ele sentiam, vendo o que eles viam.

Helgraf conta sobre como viu-se sendo um Legionário, martelando nas terríveis forjas dos corrompidos, preparando armamento para uma guerra. Ele diz que se viu também como um terror, correndo pelos campos nevados até uma fortaleza em um passo montanhoso, com a bandeira da Ordem do Dragão tremulando nas suas torres carcomidas.

Ele diz que viu a Nuália gritando, comandando o exército em uma fúria terrível e como a mera presença dela enchia-o, o corrompido, de propósito.

Mais tarde, Helgraf afirma para nós que conseguiu entender melhor as visões. Ele afirma que conseguiu reconhecer o local onde estavam as bandeiras da Ordem do Dragão: a fortaleza Dar Dohakro, no Olho do Falcão, às saias dos Picos do Trovão.

Ele diz que todas aquelas visões tinham sido da mesma “onda” de corrompidos, e que Nuália era o centro da onda, que viajava feroz para atacar a Ordem do Dragão.

Eu me lembro que o Urian não tinha comentado nada sobre a corrompidos, apostando no transporte por meio dos portais sombrios para poder evitar a perseguição dos inimigos da Ordem pelo campo, em especial corrompidos.

Isso nos preocupa bastante, especialmente porque talvez a ordem do dragão não estaria preparada para uma força tão massiva quanto o Helgraf afirma ver.

Decidimos então mudar nosso plano, e não pedir pelo cessar fogo, mas sim uma aliança contra um inimigo em comum. Nos reunimos com a Rainha Elevia e Cibele e compartilhamos nossa impressão e elas concordaram, mesmo que assustadas.

Aquela massiva força corrompida poderia colocar os planos da ordem do dragão em risco, e com isso talvez todo o mundo como o conhecemos!

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Rainha 20, 14 4e

Diário,

Passamos os últimos dois dias discutindo nossa abordagem diplomática. Helgraf e Cibele parecem bastante a vontade com isso e Elevia presta atenção em tudo, disposta a aprender e se tornar uma rainha melhor no futuro e em especial por tratarmos de tantos temas que ela sequer fazia ideia, e as vezes fica até ofendida de ninguém ter falado para ela, sendo tão importantes.

Consigo ver um pouco de mim nela.

Para mim e para Lavínia, as horas e horas discutindo termos, palavras, expressões são excruciantes, mas fazíamos o possível para acompanhar o ritmo de Helgraf e Cibele. O cônsul Pol Afreè afirma que o pedido que vamos tentar é bastante complexo, e que precisamos apresentar nosso diálogo com perfeição, pois sofreríamos a oposição de nobres profissionais e agressivos.

Ele nos informa que estarão presentes a Duquesa Karina Parmus, o Duque Donovan Parmus e o Duque Richie Bolear, que formam a trinca de duques que uma vez for composta também pelo pai da Cibele. A experiência dela nos é vital, pois ela nos corrige em vários detalhes da diplomacia, como nomenclatura e deferência, graças a sua experiência.

Além dos três, o cônsul confirmou a Lady Marian Neri e o Lorde Adolf Laurie, representantes de Lerithurt. Com a guerra civil ainda em curso na nação, Irritaria fez a sábia decisão de convidar ambos os representantes, deixando claro que não vai interferir em um assunto interno de Tulmatus.

Estariam também Marga Bengra’Dul, representante de Burkhuum, a quem o cônsul apontou a necessidade de ter especial atenção, pois é uma mestre da política urdur, e portanto, suas palavras são sempre carregadas de armadilhas.

Estariam presente também a Dama Auraxia Morel, representante dos cavaleiros do corno e refugiados de Hamask, que tem sido muito vogal contra o governo de Xeloksar e a presença da Ordem do Dragão na cidade. E finalmente, a Lady Adua Nadiva, de Yldreath, que estaria representando Ylrina Sumelara, e mais importante, a dama Branca, Lianneren Rowanna.

A politicagem é tão intricada que me faz doer a cabeça e ter um certo nojo do pragmatismo e cinismo com que Helgraf e Cibele traçam a estratégia das falas.

Muitas vezes eles me aconselham a ser comedida, dizendo de como eu posso ser grosseira as vezes, especialmente quando minha vontade não é atendida. Eu me ofendo na hora, mas com o tempo fico até um pouco envergonhada de ter passado esta impressão às pessoas.

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Rainha 25, 14 4e

Diário,

Hoje é o grande dia em que nossa negociação iniciará. Helgraf nos avisa que provavelmente o concelho durará alguns dias, e principalmente que tenhamos atenção no que fazemos.

Sua Majestade a Rainha Elevia vai vestida com um belo vestido vermelho, representando as cores de Hamask. Ela, elegante e bonita como sempre, parece ficar ainda mais a vontade neste traje.

Lavínia usa um vestido que mais parece um ornamento litúrgico, que é acompanhado de uma pesada maquiagem na cor azul. Ela faz questão de mostrar que não está lá representando Hamask ou a Ordem do Dragão, mas sim a sua fé. O vestido, azul, branco e preto, cai longo e é acompanhado de correntes que carregam imaginários lunares. Não neguemos a capacidade do Cônsul em arranjar bons alfaiates para atender às demandas da sacerdotisa.

Cibele escolhe um vestido negro e simples, já que ela não vai participar diretamente dos embates diplomáticos, mas tem um grande parte no primeiro dia. Ela está claramente nervosa e irritada, como lembro que as Cibeles ficam quando expostas a um grande estresse.

Helgraf usa suas vestimentas militares, que foram resgatadas por Medeia. Um elegante traje negro com luvas brancas, uma faixa vermelha no peito e suas medalhas no outro lado, medalhas de Hamask, da Ordem do Dragão e, inclusive, Corvo Branco. No pescoço ele carrega, orgulhoso, o símbolo do criador forjado em prata pura.

Eu vou vestida de preto e vermelho, com maquiagens em iguais cores. Eu sou a representante da Ordem do Dragão lá, a oficial, uma vez que Helgraf, como diplomata, será visto mais como um intermediário da vontade de dois reinos. Meu vestido é bonito, eu fico bem de preto, ou me acostumei já. Desde que casei com Urian, tenho longas aulas de etiqueta de corte que agora começam a fazer sentido, e todo meu guarda-roupa (que antes era inexistente) agora era composto por trajes vermelhos e negros.

Nos dirigimos ao magnifico castelo Irritaria. Prostrado em uma ilha no meio do lago Irritaria, o local é um castelo como de conto: longas torres erguendo-se de uma fortaleza alva, que parecia etérea entre a umidade do lago e os raios do brilhante sol daquele dia.

O interior do castelo é espetacular. Eu nunca tinha estado lá, mas Cibele sempre nos descreveu a magnificência e elegância do local, feito com os mais elegantes matérias e as mais belas obras de arte, em uma forma que fazia os mesmos qesires ficarem invejosos.

Nos separamos de Cibele assim que chegamos à sala de concelho, onde uma grande mesa se postava perante um trono colocado em uma posição mais alta. Cadeiras nos cantos, junto as paredes, eram destinadas a observadores e pelo corpo diplomático.

O mestre do local nos mostrou nosso lugares, e enquanto nos sentávamos, também o faziam os nossos “rivais”, que eram exatamente aqueles que o cônsul tinha descrito faz um tempo atrás. Helgraf e a Rainha Elevia são de uma elegância tal que conseguem trocar amenidades com essas figuras políticas de forma civilizada.

Lavínia era menos política, e parecia que entrara na sala com a faca entre os dentes. Ela não agradava os nossos anfitriões com nenhum sorriso e somente com respostas curtas. Ela já veio considerando-os inimigos.

Eu, por minha vez, me senti bastante fora de lugar. Absolutamente todas as negociações que tinha feito até então foram bem menos formais, bem menos ensaiadas, e certamente menos importantes. Havia, porém, um clima de antipatia sobre mim, como se eu, representante da Ordem do Dragão, antiga figura querida pela cidade, agora fosse a pior das traidoras.
Logo, o Rei de Irritaria entrou: Adrian Alexandria era um homem alto, de feições poderosas, que tinha sido um grande herói e cavaleiro em sua juventude. Ele tinha dirigido irritaria durante momentos terríveis, desde que subira ao reino durante a Guerra Elemental, faz mais de 60 anos atrás. Ele, poderia se dizer, era o arquétipo do bom Rei: corajoso, nobre, justo e sábio, um grande guerreiro e comandante. Tinha liderado seu reino contra Lenar e contra a Estrela Negra, e agora, contra Ashardalon.

Ele se senta, acompanhado por sua filia Raiza do lado, a Princesa de Irritaria, uma jovem bonita e delicada de olhos grandes e atentos.

Os cavaleiros da fênix e sua armadura emplumada apareceram também, gloriosos e inumanos, pareciam anjos guardado o rei contra todo mal. E um pouco mais atrás, os Lanternas Negros do Rei. A Grã Mestra Cibele se postou ao lado esquerdo do rei, atenta, mas evitando meu olhar.

Ela tinha tentado me matar quando estava gravida, e ver esta Cibele seria, soturna, depois de convivido com aquela que resgatamos do Senhor das Moscas, era chocante.

Após as apresentações, o Rei dá a Palavra, e então começa uma das atividades mais extenuantes, estressantes e irritantes que já tive que fazer em toda minha vida.

Não consigo lembrar exatamente o que aconteceu nestas diversas horas de discussão brutal como uma batalha, línguas afiadas como espada, e sarcasmos que golpeavam tão forte quanto magias explosivas.

-A primeira sessão diz respeito ao argumento apresentado pela Rainha Elevia, primeiramente apresentando a Cibele ao rei, e descrevendo as circunstâncias de seu resgate. Ela afirma habilmente que acreditávamos ser a Cibele original.
-Marga Bengra’Dul levanta a questão de que talvez essa não era a verdadeira Cibele, bem podendo ser uma pessoa modificada por magia. O rei manda prender as duas Cibeles com grilhões de prata, para ter certeza de que nenhuma for desaparecer pelas sombras.
-Com ajuda de Lavínia, a rainha nota que a Grã Mestra fica chocada quando a Cibele que trouxemos recebe os grilhões de prata na própria pele, e sua Majestade explora o ponto, afirmando que não tinha sido culpa da Grã Mestra, mas sim a ubris de uma poderosa maga e o amor que tinham por ela que levou a sua existência. Nesse sentido a grã-mestra era uma vítima também; uma criatura espiritual que não sabia que o era, mas uma pessoa com sentimentos e que não pediu nada disso.
-Adolf Larouse afirma que ele sabia que éramos aliados dos Sangue de Fogo, que além de terroristas, eram conhecidos por sua terrível magia de sangue. Talvez eles tivessem dado um jeito de transformar uma pessoa noutra.
-Eu afirmei que partir deste princípio era paranoia, pois se fossem aceitar isso, esta conversa inteira era inútil: Se a Ordem do Dragão pudesse – e quisesse – substituir pessoas por clones idênticos, não precisaríamos vir até lá.
-Ele afasta meu argumento como sendo ninharia e brincadeira.
-Helgraf consegue escoar entre as discussões e afirma que alguém como Barrim saberia sem dúvidas que essa Cibele não era a verdadeira, e certamente não se importou.

A acusação a Barrim termina por criar tal caos que nada mais interessante saiu desta discussão, e saímos bastante tarde a noite do local, completamente esgotados.

Na saída, o marido de Cibele, Richard, se aproxima de mim e pergunta, claramente segurando a magoa, se o que eu tinha falado sobre Cibele era mera politicagem ou era honesto. Eu confessei pra ele que era honesta. Ele não quis mais discutir e, decepcionado, se afastou.

Cibele ficara no castelo. Agora que estava livre, ela fez questão de conversar com a Grã Mestra. Elas tem muito a conversar.

Princesa Raíssa



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Rainha 26, 14 4e

Diário,

Confesso que pouco dormi esta noite, preocupada com o que o Urian poderia estar passando: Nós não sabíamos se a visão de Helgraf tinha sido sobre o futuro ou sobre o passado, e talvez a batalha estava acontecendo nessa noite.

Mas minha missão era outra: diplomacia.

O segundo dia foi tão duro quanto o primeiro, mas desta vez fora Helgraf a tomar a dianteira da discussão, e mostrou a todos nós o quão hábil ele era.

Confesso que até hoje eu achava que Helgraf era mais um guerreiro que falava bem. Ele é um combatente bem decente, e também um estudioso, mas nunca o tinha enxergado como um Diplomata, especialmente porque era eu a tomar a dianteira na maioria das discussões e negociações.

Mas ele se mostrou incrivelmente hábil como diplomata, o que foi assustador. Este homem que já vi lutar contra corrompidos agora passeava entre as linhas de retórica com igual fluidez, somente sendo enfrentado por igual por uma Marga Bengra’Dul.

Lembrei dos guerreiros filósofos de Dalant. Uma vez conheci um. Antonidas de Dalant, um espadachim hábil e igualmente hábil orador, e que devotavam-se a preservar o conhecimento. Certamente Helgraf causaria orgulho e inveja mesmo aos Dhakani!

Enfim, o segundo dia resumiu-se desta forma, se mal me lembro:

- Helgraf retomou a discussão do dia anterior, apontando como o Senhor das Moscas e Barrim eram parecidos, e usavam seu poder para benefício próprio.
- Lorde Richie Bolar critica a posição de Helgraf, que insultava Barrim e toda sua linhagem, que era insultar as tradições de Irritaria.
- Lavínia explica sobre as gemas, e diz que ela estava sendo neutra lá, pois não tinha aliança com ninguém a não ser com a fé em Nayurai. Ela aponta que as gemas deviam ser usadas para o benefício pessoal, não de poucos poderosos.
- Lady  Adua Nadiva aponta como ela estava sendo mentirosa, ao dizer que ela não tinha nada de neutro, uma vez que tinha recebido uma doação de terras para sua igreja na própria Hamask.
- Eu aponto que o que estávamos discutindo aqui era a natureza das gemas e daqueles que tinham posse deles, o que levava a um problema muito maior de quem tinha terras na cidade de quem.
- Lorde Donavam diz que a Ordem do Dragão, que tinha traído e quase assassinado o Magistrado Barrin, não tinha nenhuma moral de falar sobre ele.

A discussão se montou terrível e o Rei dispensou o concelho, claramente exasperado.

O segundo dia terminou como o primeiro, mas por sorte tínhamos Helgraf a nosso lado.

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Rainha 27, 14 4e

Diário,

Acordar para enfrentar mais uma vez, pela terceira vez, este embate diplomático, foi complicado.

E lá estávamos de novo, a comando de Helgraf contra os representantes de Irritaria.

- O assunto anterior foi retomado rapidamente por Helgraf, que preocupou-se de desenhar o Barrim como sendo um espirito, um anima, que alimentava-se do poder das gemas e manipulava o reino faz muitos anos. Ele manipulou o espirito da Fênix, e a mesma linhagem de Mishra era um ardil.
- Desta vez, Karina Paramus se exaltou, apontando como além de falar mal do magistrado e desafiar as tradições irritarianas, estavam falando de um homem adoecido!
- Eu aponto como o fato dele estar adoecido, agora sem a gema, já era um forte indicio de que havia uma conexão errada entre ele e a gema branca.
- O rei nos cala, e exige que seja respeitada a saúde do Magistrado.
- Lavínia resgata o argumento de Helgraf, apontando como por causa de uma gema tinha se montado uma guerra imensa que era nefasta para todos os lados, enquanto Ekaria e Ashardalon destruíam o resto.
- Lady Mariana Neri aponta que a guerra tinha um propósito específico, e quem começara ela não tinha sido Barrim, senão a Ordem do Dragão.
- Eu desminto ela, dizendo que Barrim tinha sido chamado para conversar de paz, e quando tocou o tema da gema, ele tinha começado a ameaçar Urian. Fui desmentida pela Grã Mestra, que disse que fora Urian que atacara primeiro. (Se mal me lembro, foram as duas coisas).
- A Grã Mestra Cibele pede permissão ao rei para falar e revela que ela se sentia cada vez mais distante, mais espiritual, devido a sua condição. Ela diz que Brianna constantemente lhe dizia que era o preço que tinha pago por sua vida, mas Cibele sabia que era algo a mais. A cada Lanterna Negra que morria, a cada momento de grande decisão que passava, ela se sentia mais cada vez mais espirito, tomando decisões que ela não faria, decisões amorais, e apontou como se isso acontecia com ela, era fácil imaginar que um espirito poderoso e obcecado pelas gemas poderia fazer.
- Cibele também fala, e diz que ela tinha sido vítima de uma criatura que utilizava-se da gema verde sobre todos os meios, e que fomentar uma guerra. Ela diz que ela sabia que a Grã Mestra não tinha culpa, ela fala de Richard, de como ela não tinha vivido os últimos oito anos com ele, e como não tinha sido parte dos lanternas por oito anos. Ela pediu a Grã Mestra para ser considerada uma aprendiz, e que não estava lá para roubar-lhe a vida, pois eram agora mais como irmãs. Ela seria sua braço direito e a apoiaria, e quando sua natureza espiritual ficasse "ruim demais" ela teria honra em sucedê-la, e lhe oferecer amizade em sua aposentadoria.

A sessão terminou em prantos da Cibele, da Grã Mestra Cibele, da Rainha Elevia, que sensivelmente fora lá a felicitar as duas, e da princesa Raiza, que vira suas mestras encontrarem a paz.

É difícil imaginar a tensão porque passaram as duas e a princesa nos últimos dias, mas ao que parece tudo ficou bem. Ou da melhor maneira possível.

O clima emocional fez com que o Rei, em respeito às duas Cibeles, dispensasse a sessão, que se dissipou sem discussões acaloradas desta vez.


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Rainha 28, 14 4e

Diário,

Outro dia de corte, e Helgraf mostrou que é um titã na diplomacia. É difícil ver por minhas descrições, mas o homem possui uma habilidade em criar argumentos e fazer os seus adversários entrarem em contradições constrangedoras. Chega a ser cruel as vezes, e são poucos que conseguem enfrenta-lo nesta arte.

Seus argumentos são certeiros, claros e com a dosagem certa de emoção, como se ele tivesse sido encantado para saber falar a coisa certa na hora certa. Mas tem algo mais. Às vezes Helgraf pega argumentos nossos que não foram bem recebidos e os repete, mudando o tom ou alguma palavra, e alcançam resultados muito diferentes...

O quarto dia começou brando, tanto pela situação com que o dia anterior tinha terminado. Desta vez, Cibele estava entre os Lanternas Negras, uniformizada e ao lado da Grã Mestra, orgulhosa de ser reintegrada a sua vida, e cheia de expectativas nos olhos.

- Helgraf lançou o argumento novo de que a Dama Branca, Lianneren Rowanna, tinha sido substituída por Lashgana, a dragonesa branca, e que esta estava manipulando, enfraquecendo as forças de irritaria, para o benefício de Ashardalon e Ekaria.
- Uma reação inesperada aconteceu. Ao invés de argumentar contra nós, os dois duques Paramus e o duque Bolear se voltaram contra a Lady Adua Nadiva com comentários crescentemente racistas contra os Alaranis, chegando ao ponto de xingar eles de Elfos Negro. Contra os avisos de Helgraf, eu comecei a defender os Alarani deste absurdo racista.
- Lady Adua crítica que eles não tinham provas desse absurdo, mas complica-se em montar um debate perante a chuva de absurdos racistas que os seus próprios “aliados” apontavam contra ela.
- Eu contei a história de como a suposta Dama Branca tinha dado a Cabala de Izack as informações sobre a Espada de Karmassal, que poderia matar qualquer coisa divina, draconiana e humanoide. E logo, como vira o dragão Lashgana fazer parte do ataque à Cidadela de Sigfried, e logo, como ao enviar um grupo ao norte com os poucos heróis que sobraram e quiseram lutar para fazer uma diferença, a Emil tinha sido corrompida pela espada. A Grã-Mestre Cibele me ajudou muito neste ponto, pois ela confirmou minha história e completado as lacunas da minha memória, afinal ela estava lá.
- A Marga Bengra’Dul questionou o que Lashgana ganharia fazendo isso, este aldril. Lavínia adiantou-se e informou que matar Salokhnir, o que revelava que o poder de Ashardalon não era tão monolítico como se acreditava. Então, o capitão dos cavaleiros da fênix pediu a palavra, e contou que Salokhnir tinha sido ceifado pelos bárbaros liderados por Emil, e que agora aterrorizavam o norte gelado.
- A Rainha Elevia aproveita a emoção e conta ao Rei como Hamask tinha sido devastada por causa de uma dragonesa, e que o destino era terrível. A atuação da rainha chegou a dar uma pausa aos argumentos contra os alaranis, enquanto a Rainha descrevia a devastação de Hamask a primeira mão.
- Tudo mundo se convenceu menos Dama Auraxia Morel, que apontou que uma coisa não tinha a ver com a outra, e como a Ordem do Dragão tinha se aproveitado exatamente deste caos para tomar Hamask e colocar um fantoche como Xeloksar no poder.
- Eu apontei que eu também estava lá, e se não fosse pela Ordem do Dragão, Hamask teria sido transformada em uma cratera pela Aurora Escarlate. Auraxia me rebate dizendo que tinham sido os valaryn a expulsar o Dragão, e eu apontei que se ela reduzia a quase destruição de Hamask a essa simplificação era porque ela não estava naquele dia fatídico ou não prestara atenção.
- Em certa altura da conversa, notei como o Rei solicitou que a Grã Mestra saísse pela primeira vez. Ela retornara algumas horas depois, e contara algo ao Rei, que então interrompeu o concilio e se dirigiu diretamente à rainha, questionando se ela afirmava com sua certeza Real de que acreditava que as informações que tinha sobre Lashgana eram verdadeiras, a que a Rainha confirmou.

O rei Adrian dispensou o concilio e se retirou rapidamente do local.

Soubemos que nesse dia, mais tarde, os Lanternas Negras tinham se dirigido ao consulado de Yldreath, que negaram a entrada dos Lanternas (é uma embaixada afinal) e quase tinha acontecido violência, uma vez que a Grã Mestra teimara que Yldrath fazia isso para defender Rowanna, e se era verdade a acusação, a dragonesa poderia escapar nesse interim. Somente foi parada por Cibele, que a fez ver a razão.

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Rainha 29, 14 4e

Diário,

O quinto dia de argumentos fora o mais chocante, de longe, e percebemos claramente como a delegação de irritaria tinha perdido espaço, pois foram menos vogais, e o seriam especialmente pelo que a Lavínia tinha a dizer.

Lavínia nunca foi mulher de esconder o que sente, ou medir suas palavras pela sensibilidade de outros. Ela foi clara e dura, e talvez isto tenha sido o ideal.

Ela iniciou a discussão que Ekaria e Ashardalon não eram só inimigos, mas também estavam tramando juntos o fim dos humanoides. Ela levou a vergonha aos ouvintes, ao criticar como tudo mundo brigava por razões as vezes absurdas enquanto a civilização era varrida do mapa por dragões e corrompidos.

Para fazer seu ponto forte, ela mandou adentrar o cadáver do aberrante que tinha nos atacado caminho aca e falou como essa coisa tinha tentado matar a Rainha Elevia, e a Filha de Irritaria, Cibele, e que heróis como a cabala que montei, tinham sido dizimados por criaturas como essa.

A mera visão da criatura foi um choque para todos, em especial para os Duques de Irritaria que chocaram-se ao saber que esse monstro tinha sido encontrado dentro de Argus, a um dia da Capital.

Lady Marian Neri tentou formular um contra argumento, dizendo que o Reino Unido não iria participar da cruzada religiosa dela. O Argumento dela foi abafado na hora pelo feroz olhar de Lavínia, e o olhar de censura de Adolf, Richie, Katrina e Donovan, que tinham conseguido abstrair e ver que a fé dela tinha sido caçada por estes monstros, e mesmo assim, ela lutava com todas suas forças e armas para manter sua fé viva.

A delegação de Irritaria não conseguiu formar argumentos para combater o fato de que havia um aberrante lá, e que este aberrante tinha atacado a delegação de Hamask, que quase fora morta. A criatura era real e igual nossos ferimentos, como o de Helgraf, que ainda carregava uma faixa na cabeça que trocava a cada hora para evitar que ficasse ensanguentada.
O Rei interrompeu logo o concelho, pedindo tempo para todos se recuperarem e retirarem a criatura desse lugar.

Voltamos somente no meio da tarde, e todos ainda se viam abalados pelo que Lavínia tinha contado e demostrado. Helgraf testara durante o almoço o que se falava, e a discussão geral entre os corpos diplomáticos era que se aberrantes e dragões tinham se esforçado tanto em destruir a delegação de Hamask, era porque se beneficiavam da guerra entre as cidades.

Desta vez, fui eu a iniciar a conversa.

Eu pedi permissão ao rei, e me dirigi diretamente a ele. Eu contei que eu tinha dedicado minha vida a um proposito: Salvar o mundo de monstros. Tinha sido eu e Cibele a derrubarmos a Estrela Negra e a lançarmos o Setrous de volta a seu abismo imundo, eu contei que tinha viajado para Corvo Branco, Rosseta, Silverar e diversos outros lugares, mas sempre enfrentando monstros. Todos naquela sala sabiam quem eu era e o que eu fazia.

Disse a ele que nesta procura por enfrentar estes males eu tinha perdido tantos amigos e tinha quase morrido tantas vezes que perdia a conta. Disse que independente de qual fosse meu marido, meu lar, eu não iria parar de lutar para evitar que monstros matassem os humanoides.

E disse que em diversas ocasiões, fora Irritaria e seus heróis que tinham salvado a todos, lutando as mais terríveis batalhas para isso. Este era o destino da nação, e de seu povo.

Disse a ele que como representante da Ordem do Dragão, eu estava lá para solicitar só uma coisa: Auxilio. Ajuda ao plano que Urian traçou, porque se ele desse errado, a civilização não resistiria mais um ano, e todas as batalhas de Irritaria e as minhas estariam perdidas.

Eu não sei que efeito teve minha fala. Eu não me importei em escutar ou responder nada. Escutei a voz de Katrina Parmus e Lavínia discutindo, escutei a Rainha chamando por calma, e a voz calma e arrogante da Dama Auraxia Morel fazer algum comentário sobre mim, sobre como era arrogante ou algo assim.

Não me importei, eu fiquei lá, de pé, perante o trono do Rei Adrian, olhando atentamente para ele. Eu nunca desejei algo tanto na minha vida como a compreensão desse homem. Eu imaginava as hordas de corrompidos atacando a ordem do dragão, obrigando Urian recuar, matando meu marido e carregando as gemas para longe.

Eu via os olhos do Rei Adrain olhando ao longe, vidrados, pensativos. De como ele olhou para a filha dele de relance e franziu a testa.

Ele então ergueu a mão para parar a discussão que acontecia atrás de mim. Ele então chamou o seu neto, o Ser Luitaniel Darvon Alexandria, que era comandante de seus exércitos.

E então ordenou a seu comandante que juntasse as hostes. Irritaria iria marchar para a batalha.

Eu poderia ter beijado os pés daquele homem naquele momento. Nunca estive tão aliviada! Meus músculos estavam tão tensos enquanto esperava a resposta dele que precisei me sentar depois de sua resposta.

Talvez agora tenhamos uma chance!

Rei Adrian


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Ladrão 2, 14 4e

Diário,

Três mil aves de guerra marcham para a guerra, colocadas nos navios a vela que navegavam velozes pelo Lago Irritaria. As aves, e seus cavaleiros emplumados pareciam aquelas pinturas de guerras lendárias que Xeloksar tinha na mansão dele.

Eu sei que Urian tinha me falado para ficar longe, mas terei que descumprir. Lidarei com isso depois, por ora, ajudarei a salvar o mundo!

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Ladrão 7, 14 4e

Diário,

A batalha que participei hoje foi desesperada, talvez lendária, mas terrível. Cada vez que fecho os olhos vejo a imagem terrível de Ashardalon. Fiquei machucada, mas o que mais me feriu foi sentir quão fácil minha mente se me escapou.

Me chamaram de louca tantas vezes, Lavínia, Luna, Xeloksar, Lindriel, tanta gente que eu achava que estavam me insultando somente, mas hoje eu senti no fundo da minha mente esta... Esta pedra faltando, algo imperfeito e frágil que por um momento englobou tudo.

É desesperante saber que carrego este medo adentro de mim, e que agora consigo sentir rondando meus sentidos, enegrecendo minhas emoções e enevoando meu raciono. Eu achava que esta fumaça negra nos cantos da mente era somente desespero, ou tristeza, ou um misto dos dois, mas é algo mais...

A batalha, me contaram, começou com uma investida de draconatos. Centenas de seres dracônicos investindo contra um exército amalgama de Alaranis, soldados de Hamask e de Selvalis e da Ordem do Dragão.

Esta primeira onda fora derrubada sem lutar: Dentre os soldados de Selvalis, Karalanar, Bum e Raagras estavam lá, e tinham montado uma armadilha para o primeiro inevitável ataque, que criou dezenas de explosões poderosas assim que os draconatos passavam, criando crateras grandes por todo o perímetro do local, e fazendo os draconatos recuarem.

O segundo ataque dos draconatos também fora repelido pelas habilidades do trio de Selvalis, que trouxeram da Montanha Prateada um enorme arma. As forças dracônicas, apostando em um grande trunfo, lançaram uma carga completa acompanhadas de dragões jovens, e dentre eles, um maior, o grande dragão ancião Endrakur.

Um sopro daquele dragão poderia derreter a pedra e os homens das fileiras da igual maneira fácil, mas foi detido.

Raagras ativara esta arma das maravilhas, trazidas de terras distantes, que lançou várias esferas brilhantes contra o peito do ancião, que fora pego por surpresa. Estas esferas ou balas gigantes, explodiram com uma força inimaginável, e em segundos, o grande Endrakur despencara dos céus, morto. O sangue ácido dele jorrara por todo o local, e draconatos e humanoides foram afetados e tiveram que se esconder, acabando prematuramente a segunda onda dos Draconatos.

"My armor is iron" this!


Disseram que se passou diversas horas até que os draconatos voltaram a formar diante do campo de balata. Eles apreenderam que os mortais estavam preparados e não esperavam por uma segunda chance.

Eles esperaram de proposito por duas coisas: a primeira foi a chegada de dois grandes anciões a mais, e dois mais importantes dentre os servos de Ashardalon: a Dragonessa Lashagana, agora a mão direita do deus dragão, e o ancião Endregun, o Dragão de Dalant, que tinha comandado durante séculos os dakhani daquela região em guerras sem sentido e devoção divina a sua figura.

E também, tinham esperado a noite que veio com os reforços que queria: a maior horda de corrompidos jamais noticiada, comandadas por ninguém menos que Nuália.

A horda, além de seu imenso volume, era levada por uma especial determinação, e ao invés de atacar desordenadamente como é a natureza destes monstros, eram guiados pela vontade uníssona daquela cultista.

Os draconatos permitiram que os corrompidos iniciassem o embate, e os acompanharam somente como reforços. Nos ares, uma batalha titânica começou.

Me contaram que no alto do pico do trovão, Urian não desperdiçou o seu tempo e iniciou o ritual tão logo conseguiu. O ritual envolvia diversos dragões que eram seus discípulos darem o sangue e a vida para que ele, Urian, um humano, pudesse utilizar a magia draconiana, em conjunto com as pedras.

Dentre os dragões que estavam com Urian, um se destacou: Darigás.

Durante todo este tempo, desde o início da ordem do dragão, e antes, tinha sido Darigás o motor de toda esta resistência. Ele, conhecido como O Grande Dourado, era o nêmese de Dragdar, e mais de uma vez tinham ambos lutado por influência e tinham atrapalhado o plano um do outro. Ele era uma das figuras tradicionalmente aliadas dos humanoides, o mentor tanto de Eurilance quanto Arragrat, e detentor de conhecimentos dracônicos que compartilhava com alguns mortais.

Tinha sido Darigás que atrapalhara o plano de Dragdar quando o tirano tentara colocar suas memorias no corpo de um rebento da guerra para escapar da morte, e tinha, como resultado, dado vontade própria à criação: Urian.

Darigás e Urian tinham criado a ordem do dragão, criado o ritual dos paladinos e ainda elaborado todo o plano que culminava naquela noite.

Darigás tinha estado ao lado do Urian todo esse tempo, disfarçado na figura do Grão-Arauto Elithinen.

O mesmo Elithinen que tinha tomado a decisão de matar Elizabeth.

Quando Endregun e Lasgana se aproximavam do forte, voando vitoriosos, pois haviam muitas poucas forças no mundo que poderiam derrotar o seu poder combinado, o grande Dourado surgiu. 

Muito maior que eles, Darigás atacou-os a grande altura e enfrentou os dois ao mesmo tempo. Concentrando-se no mais fraco deles primeiro, o Dourado estrategiou para cair por sobre a dragonesa branca, quebrando os ossos dela contra a rocha e graças a seu enorme peso. Lashgana tentou lutar, mas não era páreo para o dragão maior, que agarrando-a do pescoço, desnucou-a com uma força tão descomunal que só poderia pertencer a dragões.

Mas Endregun aproveitara e atacara Darigás pelas costas, e o feriu terrivelmente enquanto os titãs lutavam.

Dragões menores voavam pelos ares, aliados de Urian e servos de Ashardalon, se enfrentado em combates lendários cada um deles. Os acompanhavam os paladinos da Ordem do Dragão, que combatiam com agilidade incrível e técnica que somente os dragões já maiores conseguiam lutar.



Abaixo, o volume e determinação da horda corrompida não podia ser parado. Eles enfrentavam os soldados humanoides com tanta fúria e determinação como nunca antes se vira nestes exércitos.

E Nualia que os liderava era uma força da natureza pro si mesma. Munida de uma força inumana e uma fúria quase divina, ela varria os campos de batalha, matando humanos, dragões e paladinos com igual facilidade. Ela arrancava dragões menores dos céus, matava os dracos dos paladinos e os seus cavaleiros e suportava ferimentos mortais sem parar. Mesmo as chamas dracônicas de um jovem dragão não conseguiram a deter, enquanto ela liderava seu devoto exército monstruoso contra a fortaleza de Dar Dohakro.

Foi então que chegamos ao campo de batalha.

As hostes de Irritaria apareceram no flanco da grande massa corrompida, trajando branco e dourado e ao som estridente das aves de guerra, que em grandes volumes faziam um som sobrenatural. O rei ordenara que fossem tiradas as biqueiras; eu já tinha visto o que essas feras de guerra podiam fazer, mas isso significaria se expor à sangue corrompido. O rei sabia que a maioria não sairia daquele campo...

A primeira investida contra o flanco corrompido tinha a intenção de tentar forçar as suas hordas a recuarem, para ganhar tempo à Ordem do Dragão de reagrupar e cuidar de seus feridos.

A investida, mesmo não tendo o resultado desejado, foi forte o suficiente para forçar os draconatos a se unirem a batalha, do outro lado do campo. Helgraf, Lavínia e eu estávamos nesta primeira investida.



Foi me dito que Helgraf destacou homens e investiram contra os feiticeiros corrompidos. Os diabos magros e assustadores eram, além de líderes, poderosos feiticeiros de sangue. Helgraf fora quase vítima de um deles, que vaporizara sua ave de guerra com um raio terrível, que o inquisidor conseguiu evitar a último segundo. Dizem que Helgraf carregou sua adaga de prata e agilmente aproveitou-se da conjuração da criatura e a ceifou. A criatura tentara lançar um encantamento sobre ele, mas Helgraf, abençoado pelo Criador, surgiu imune, pronto para cravar a adaga na testa da criatura mágica, que estremeceu. Antes de ser envolto por corrompidos, ele fora salvo por uma cavaleira que levou-o junto com sua ave de guerra.

Lavínia acompanhara os hospitalários marchando até os feridos e evitando que soldados ainda aptos morressem ou se tornassem pesos mortos. Dizem que ela salvara alguma dezena de homens, que voltaram a batalha com folego renovado.

Eu liderei uma investida direto no fronte do inimigo. Meu pássaro fora morto quando avancei contra um Diabo, mas graças a força da minha montaria morta, consegui cravar uma lança no peito do grande corrompido. Não dei brecha para ele e cravei minha espada no seu olho, e num movimento de braço, destruí o que rachava o seu crânio. Ainda lutei com um par de corrompidos antes de ser assustada por um aberrante, como se fosse um verme monstruoso e gigante, rastejando rapidamente na minha direção. Porém, a criatura não esperava que um dragão a notara.

Verde e jovem, a criatura voara perto de mim e assoprara sua baforada tórrida por sobre o aberrante, que em momentos tornou-se uma carcasse fétida e enegrecida. A criatura, aparentemente me reconhecendo, me ordenou ser mais cuidadosa.

Eu sei que enquanto fazia isto, Helgraf conseguira uma nova montaria e liderara um destacamento de cavalaria que, em uma investida gloriosa, penetrara profundo no flanco do dos draconatos, que focavam-se em avançar e não esperavam por esta investida, fazendo movimentos ágeis para, como uma arma, aumentar a ferida.

Eu comecei a juntar homens ao meu redor, que alguns me reconhecendo, chamaram meu nome. Eram pessoas desgarradas de suas unidades e muitos deles, perdidos, lutavam mais por sobrevivência que por uma eficiência. Estava no fronte. Enquanto mais homens se juntavam a mim, mais pesado começávamos a empurrar os corrompidos desse lugar para longe. Mas o tamanho do meu “grupo” me traiu, e um dragão alto, de cor azul metálica, aterrissou e veio na minha direção.

Dei uma espada na criatura, incentivando meus soldados a fazerem o mesmo. Minha intenção era forçar a criatura a voar novamente, e evitar que ela usasse sua baforada sobre todos nós, no solo.

A criatura entendeu meu plano e tentou me morde, mas não conseguiu perfurar minha armadura. Ele então começou a me arrastar para longe, apesar de que pelo peso, não conseguira voar. Eu percebi outro dragão inimigo voando na minha direção, e sabia que se ficasse enfrentando este aqui logo teria que lidar com dois dragões, o que seria letal.

Minha armadura me salvou: Me concentrei nela, e, naturalmente, o encantamento forjado nela ativou. As runas douradas brilharam e me tornei um grande lobo metálico. Nesta forma, consegui escapar dos dragões por entre o campo de batalha.
A forma era muito conveniente: rápida e forte, como era feita de metal, não me preocupavam ocasionais golpes de espadas ou flechas que tentavam me parar.

Eu vi de lance quando a Lavínia notou a Nuália, e em um clamor religioso, dirigiu seu pássaro de guerra contra a terrível líder dos corrompidos. O golpe de Lavínia golpeou Nuália no peito, causando estrago o suficiente para ferir gravemente uma pessoa normal. Mas a sacerdotisa de Ekaria estava longe de normal.

O ferimento cicatrizou rapidamente, e Nuália se focou na Lavínia. Sua feição mudou e dizem que seus olhos adquiriam a expressão do ódio extremo. Nuália abandonou seu posto de comandante e transformou-se em um enorme lobo branco e selvagem, revelando uma natureza que até agora era para nos desconhecida.



Lavínia, também carregada por um ódio divino, tornou-se o leopardo branco e ambas as bestas investiram uma contra a outra.

Nuália, porém, pensou melhor. Ela desfez sua transformação animalesca no último segundo, e agarrou o leopardo pela garganta, golpeando-o no solo com fúria. Então aquela garra monstruosa dela começou a rasgar Lavínia, que, presa pela enorme força de Nuália, não conseguia se defender. Pronto, o leopardo branco tingiu-se de vermelho enquanto o sua carne era rasgada.

Eu não tenho apreço por vontades divinas, e mesmo sabendo que esta era uma batalha com fortes caratês de fé, não estava disposta a deixar a Lavínia ser vítima de Nuália.

Correndo pelo campo de batalha, me joguei na minha forma lupina e metálica contra a Nuália. O golpe foi forte, mas igual o era Nuália. Fomos jogadas a vários metros de distância, e a sacerdotisa conseguiu me agarrar antes que conseguisse reagir após os choque. Nuália desferiu um golpe forte contra minha forma, mas sendo feita de metal, o golpe não surtiu tanto efeito, apesar do som que acredito tenha ressoado pelo campo de batalha.

Se aproveitando da situação, Helgraf surge como do nada e montado em seu pássaro de guerra feroz, golpeia com uma lança a Nuália pelas costas. O ferimento é horroroso, e teria matado qualquer criatura do tamanho dela, mas não ela. Enquanto Helgraf fazia a volta para se preparar para uma outra investida contra a líder dos corrompidos, Lavínia aproveitou a oportunidade e fugiu. A ira de Nuália contra a Lavínia era tanta que ela me largou e esqueceu-se do campo de batalha. Tornando-se um lobo novamente, ela correu atrás da sacerdotisa de Nayurai, ganhando preciosos minutos para mim e para Helgraf.

Eu olhei para ele e ele entendeu o que pensava: Não tínhamos como derrotar Nuália em combate. Havia algo nela completamente sobrenatural, nenhuma ferida parecia lhe afetar e cada golpe dela era devastador. Helgraf olhou sua adaga de prata, e mesmo acreditando que poderia servir, percebeu que precisávamos de algo a mais. Enquanto Lavínia corria desesperadamente pelo campo de batalha, salvando-se por pouco de uma desvairada Nuália, percebemos que enquanto a cultista não se concentrava, os Corrompidos perdiam a coesão e tornavam-se ineficientes. Ainda terríveis e brutais, mas não eram a força letal e dirigida.

Fomos até Dar Dohakro e lá nos informamos onde estavam os feiticeiros. No caminho, achamos Karlanar, que atirava contra corrompidos que tentavam escalar as paredes da fortaleza. Ele me perguntou o que queria e lhe disse que parar Nuália. Karalanar tinha tentado atirar nela, mas as balas de sua carabina não tinham efeito.

Nesse instante, eu sinto uma mão grande em meu ombro e olho pra cima: Raagras estava lá, coberto de fuligem. Eu tenho vontade de abraçar ele, mas também uma pitada de ódio cruza meu coração por um minuto.

Raagras estava trabalhando com Selvalis. Durante todo este tempo, eu achava que ele era um prisioneiro, mas não. Ele tinha viajado com Karlanar e outros à montanha prateada, e tinha desde então trabalhado para criar armas e invenções com o alarani e provavelmente o Bum. E eu acreditava que ele estava sendo torturado, forçado a trabalhar sob a ponta de uma espada, ou morto e dissecado.

Mas não era tempo agora para isso.

Raagras disse que Bum queria falar comigo. Indo até onde o maluco Akiak estava, Bum me disse que tinha algo que poderia parar a Nuália. Ele me deu uma rede de prata, como a rede de um gladiador, o Prendetron 2000 ou algo assim, e nos entregou um pingente prateado, claramente encantado.

Ele explica: ele acreditava que ainda havia algo de bom em “Nunu”, e que nós tínhamos que dar a chance a ela de provar que não era esse monstro que todos nos víamos, que ela estava sendo controlada. Ele tinha mandado encantar, um encantamento muito poderoso, o pingente que nos entregara. Este pingente tinha o poder de acalmar qualquer besta. Era para nos usarmos a rede para prender ela e logo colocar o pingente em seu pescoço, que ela se acalmaria e veríamos a bondade dela.



Conseguimos a carona de um paladino e seu Draco, mas tive que deixar minha armadura para trás, pelo peso. Nuália e Lavínia se moviam a tal velocidade pelo campo de batalha que voando era a única forma de alcança-las.

Quando nos aproximamos, notei que Lavínia entendeu que tínhamos um plano, e sabendo que não poderia fugir para sempre, parou.

O que se seguiu foi algo... inacreditável.

O leopardo de repente pareceu relaxar perante o lobo grande, branco e ensanguentado que corria contra ele. O lobo saltou e como preso num transe, numa dança suave, o Leopardo esquivou do lobo sutilmente.

O lobo atacou novamente, e o felino se moveu somente o necessário para inutilizar o golpe de Nuália, e de novo, e de novo. Quando conseguimos aterrissar, vimos algo impensado:

De repente, como se golpeada por uma flecha invisível, o lobo branco caiu ao chão gemendo, de dor. E outra vez, e outra vez.

Lavínia, ainda em forma felina observou o lobo naquele transe durante um tempo, sem mover um musculo, então de repente ela se destransforma e se joga sobre o lobo branco, o abraçando.

Lavínia me contara que isso tinha sido uma visão enviada pela própria Nayurai, uma benção divina, uma providência. Ela diz que quando percebeu que teria que enfrentar Nuália e deter ela para nós, sentiu o toque do divino em sua mente e tudo ficou claro: Ela sabia o que fazer.

Ela não controlou seu corpo enquanto se esquivava de Nuália, mas ao contrário, parecia de repente enxergar por três olhos: Os olhos dela, os olhos de Nuália, e os olhos de um homem acorrentado na parede.

Ela ao começo ficou confusa, mas percebeu logo pela visão do homem: Era Lucian. Em algum lugar do mundo, ele estava sendo acorrentado na parede, e repetindo minhas palavras: "todo mundo tem que fazer sua parte", ele ordenara Illizarelli a prosseguir com o plano.

A alarani queixou-se do trabalho e do desperdiço que era fazer isso com ele, mas Lucian estava determinado. Ele então abriu sua conexão ekariana, entrou em harmonia com a mente coletiva grotesca dos aberrantes e corrompidos. Como possesso, ele falara palavras negras, mas após uns segundos, pareceu achar o seu verdadeiro alvo: Nuália.

Controlado agora, mesmo que ainda conectado, ele comanda a feiticeira alarani a iniciar o plano, e esta puxa uma adaga pontuda, e esfaqueia Lucian. A conexão que Lucian tinha estabelecido com Nuália transmitiu a dor e da facada contra a cultista, naquele momento em que vi ela caindo de dor. Foi então que Lucian percebeu algo de errado: Ele percebera que Lavínia estava conectado junto a ele, de alguma forma. Ele não reconheceu a sacerdotisa de começo, mas conseguiu entender que era ela. Isso não impediu que Illizarelli o esfaqueasse um par de vezes mais até ser convencida a parar. Foi quando Lavinea saíra da forma felina e gritara para nós dizer sobre a natureza de Nuália.

Lavínea me contou que Nayurai a permitira ver para além do que Nuália é, e que ela vira a história da mulher:

Ela tinha sido criada por um sacerdote do deus da guerra, que apesar de não ser seu pai biológico, ela o considerava como se fosse. Quando era uma adolescente, ela se encantou com um trovador viajante, um ladino que a deixou gravida e fugiu. O pai de Nuália não aceitou que sua “filha” estivesse gravida, e quando o filho dela nascera, tomou a criança e a afogou.

Lavínia contou para mim que nesse momento a raiva de Nuália pareceu criar alguma coisa no coração dela, e numa noite, embebida por ira e magoa contra seu “pai”, ela o esfaqueou enquanto dormia. O homem acordara e tentara se proteger, mas apesar de ser maior e mais forte que a Nuália, ela lembra que a em um apagão embebido em fúria, Nuália o matara, com suas mãos cobertas em sangue.

Ela fugira então, e fora encontrado por um bando de akiaks que começaram a trata-la como se fosse uma dela. Estes akiaks, assaltantes de estrada, foram durante um bom tempo a família de Nuália. Até o derradeiro dia em que o bando foi caçado por um pequeno grupo de eclesiásticos de Nayurai. A grande maioria dos bandidos foram mortos, mas Nuália e alguns poucos foram infectados com a maldição da licantropia, como punição.

Ao contrário das expectativas para uma pessoa tão pequena como ela era naquele instante, Nuália sobrevivera à transformação, e o grupo de Nayurai vira isso como uma benção e a tomara como um dos seus. Durante um tempo, Nuália andara com eles, aprendendo como controlar suas mudanças, mas em segredo odiava aquele grupo que lhe tirara a família e o amaldiçoara.

Ela se lembra de, numa noite, ter atacado o grupo de surpresa, e com suas próprias garras ter arrancado as gargantas do grupo. Novamente sozinha e perdida, ela fugira, só para ser encontrada e cercada no meio de uma clareira por corrompidos.

Nuália lutara com eles, e matara muitos com garras e mordidas, mas o sangue negro a infectara, e ela agonizara por muito tempo. Mas ela sobrevivera, assim como sobrevivera à licantropia.

Porém, outro grupo tomou notícia de Nuália e a carregara enquanto ela agonizava com o sangue venenoso da mãe negra: um grupo de cultistas de Ekaria que notaram nela algo especial.

Eles a torturaram, a quebraram e a fizeram lutar contra corrompidos e aberrantes. Ela lembra-se de ter sido jogada em uma arena com paredes de ferro com espinhos, e de ser obrigada a enfrentar um diabo. Ela se lembra do monstro arrancando o braço dela e comendo ele. E logo, Nuália se lembrou dela sobre o monstro caído, com o sangue negro do corrompido em sua boca e partes da face do diabo arrancadas.

Ela se lembra de ter mandado que costurassem o braço do diabo no lugar daquele que ela perdera. Ela se lembra de ter frequentado cultos, conhecido cultistas de Ekaria que viam ela como uma figura abençoada. Lembra-se de dirigir estes cultos em vingança contra todas as igrejas do deus da guerra e da deusa da lua que ela descobria.

Ela se lembra de Khain e como conheceu pessoas fugidas da fúria da rainha, e como estas pessoas tinham se aproveitado de sua força para prosseguir seus planos contra a tirana. Lembra-se de ter infectado refugiados nos esgotos de Khain e dado a luz crias monstruosas.

Nuália se lembra de ter caminhado no meio das ruinas de Tassilion onde a rainha rosalia estava presa, e como num transe, ela se lembra de ter cortado sua mão e jogado o sangue negro de Ekaria na bolha de sangue da população de Khain, onde Dragdar cumpria seu grande plano, e assim, corrompendo Ashardalon.

Ela se lembra de estar com a Cabala do Fogo da Alma e ter contado para os heróis uma versão distorcida da história. Ela se lembra de ter torturado os aprendizes de izack com o sangue negro, e descoberto seus segredos. Ela então se descobriu e conseguiu o coração de Izack para mata-lo.

Mas ela não desejava matar Izack e resistiu até estar na frente dele, para dar uma chance ao mago de resistir. Mas Izack estava fraco e não conseguiu, e ela esmagou o coração do mago, matando-o.

Ela se lembra de ter liderado corrompidos em batalha, e se lembra de ter recebido a visita de uma criatura monstruosa, um humanoide alto e magro, com cabelos como tentáculos, que vira nela algo especial e, de alguma forma, a agraciara.
Ela lembra de ter conversado com um lanterna negra que era um cultista de Ekaria e descoberto informações vitais, e lembra-se também de vestir a pele de diversas pessoas, espiando Hamask de longe, ou disfarçada como um corrompido para medir a força de seus inimigos.

Lavínia então teve uma certeza: Nualia era mais que uma mera humana. Ela era o quinto Rebento da Guerra.



E isso que a sacerdotisa gritou para mim e para Helgraf, enquanto tentava chegar perto do lobo branco, que se debatia com cada facada dada a Lucian. Sem o contexto, nem eu nem o Helgraf entendemos o que Lavínia tentava dizer, mas nós tínhamos outra preocupação.

Mesmo mais desorganizados sem a vontade de Nuália os guiando, os Corrompidos ainda eram uma força letal que estava avançando por sobre as defesas da Ordem do Dragão, e pessoas morriam a cada minuto que essa situação se mantinha.

Eu joguei a rede de prata sobre Nuália. A prata a paralisou e fez o lobo gemer em dor enquanto o metal queimava sua pele licantropica. Eu me joguei sobre ela e agarrei o pescoço, enquanto Helgraf dava o pingente a Lavínia, que o colocava ao redor do pescoço do lobo.

Soube depois que a rede também queimara Lucian indiretamente, revelando a cruel relação entre os dois que Lavínia não percebera.

Com o colar colocado, o lobo tranquiliza e sua forma lupina se desfaz, revelando novamente a branca Nuália, nua e ensanguentada, jogada na terra suja.

Enquanto Lavínia abraça a Nuália entumecida pelo colar dado por Bum, a Lavínia a abraça e pede para ela ser forte. Os corrompidos começaram a avançar sobre nós, e tive que pegar a espada de Nuália que estava no chão e lutar contra eles.
Lembro ter visto de relance quanto Lavínia pedia para Nuália combater o mal de Ekaria, e para Illizarelli parar de esfaquear Lucian.

Lavínia, ainda presa nesse transe, nessa conexão, conseguia ver Nuália, Lucian e seus próprios olhos interligados.

Lembro ter visto Helgraf avisar a Lavínia que eles não tinham ideia de quanto tempo o encantamento de bum iria segurar a cultista, e que os homens estavam morrendo. Nuália dizia em voz fraca que ela não tinha culpa, e começara a chorar de medo, pelas coisas que fizera e pela morte que ela se sentia aproximar.

E ela tinha razão: Nuália sempre fora uma vítima. Ela sempre fora usada por outros para seus próprios fins, e nunca lhe foi dada a escolha de ser quem ela desejava ser. Ela nunca fora senhora de seu destino, e ao contrário, fora lhe reservado um destino cruel nas mãos de monstros e gente sem escrúpulos, que a queriam por sua força e somente por isso.

Este destino cruel parece ter sido a sina de todos os rebentos da guerra. D’Shayne, que morrera atrapalhando os planos da Rainha de Sangue de Lemuria. Garred, que vivera pela guerra ainda infante, e, negado do amor de sua vida, tinha pagado o ultimo preço para a salvação do mundo. Edgar, que tinha sido obrigado a matar seus amigos e família para a salvação do mundo, e que isto não lhe trouxe paz. Urian, que tinha tido sua mente arrancada e seu corpo utilizado como uma salvaguarda de um dragão, e somente pelo acaso tinha se tornado algo mais; E Nuália.

Mas os corrompidos chegavam mais perto, e eles avançavam contra nossos homens. E a qualquer minuto o encantamento de bum se provaria ineficaz para segurar um rebento da guerra, um licantropo, uma cria de Ekaria.

Lavínia gritara com Nuália, pedindo para ela ser forte, e enquanto a Ekariana chorava, pedindo para não morrer, lembro que Lavínia dissera a ela que Lucian tinha mais direito que ela de viver.

Helgraf então passou a sua adaga de prata para a Lavínia e falou: Faça.

Lavínia se desculpou com a caída e chorosa Nuália e cravou a adaga no peito dela, terminando a vida dela.

E sem saber, naquele instante, Lucian também morrera.

No mesmo instante, os corrompidos pareceram confusos e chocados, como se alguma coisa neles tivesse desligado. A coesão letal deles se perdera, e em uma onda de caos e destruição, eles começaram a se espalhar. Diversos lutaram contra si mesmos, outros atacaram os draconatos e dragões. Outros fugiram do local ou eram controlados por diabos, que semi-inteligentes, ainda conseguiam ter uma melhor noção do que fazer.

A enorme massa de corrompidos perdera sua força, e mesmo que letais, se tornaram um perigo para todos em comum, inclusive para as forças draconianas.

Nesse instante, Endregun, o Dragão de Dalant, conseguira derrotar Darigás. O corpo do Grande Dourado caia, rasgado e sem vida, enquanto o dragão avermelhado e leonino se erguia triunfante, só para ver um campo de batalha em caos e perceber o que acontecia com a grande batalha.

Ele então começou a gerar energia para seu infame sopro elemental. São poucos dragões que aprendem a soprar energia diferente que fogo. Lashgana sabia como transformar sua baforada em um sopro congelante, e Endregun, ele era o senhor dos raios e tempestades.



Nos estávamos em campo aberto, sem nenhum tipo de proteção por perto. Se a baforada elemental de Endregun nos encontrasse, nem que seja de raspão, morreríamos. Dei a espada ensanguentada de Nuália para Helgraf, que era o único entre nós que tinha armadura, e eu carreguei o corpo sem vida de Nuália, já que Lavínia estava ainda muito ferida.

Corremos entre guerreiros, draconatos e corrompidos lutando desesperados. Corrimos em direção ao único abrigo que tínhamos: a fortaleza de Dar Dohakro. E apenas conseguimos entrar quando Endregun assoprou.

Foi como reviver um dia faz quase dois anos atrás. Foi exatamente a mesma sensação de impotência, de terror. Os pesadelos de cada noite durante anos tornados vivos na minha frente, enquanto os raios do Dragão de Dalant cruzavam as linhas de soldados, obliterando draconatos, corrompidos, humanoides, dragões menores, rocha e metal com a mesma facilidade. O chão se rachava com os relâmpagos que saiam do dragão.

A fortaleza quase ruiu e centenas de pessoas morreram nesse instante.

Foi então que eu vi, voando no horizonte. O dragão de muitas cores. Ashardalon em sua forma etérea, fantasmagórica, vindo para encerrar a batalha. Sua forma era de um dragão multicolorido, mas ele estava claramente corrompido, monstruoso, errado. Ekaria claramente existia nele. O que se seguiu para mim foi como caminhar em um sonho. Não lembro nada, somente lembranças estranhas que não sei se são verdade ou mentira, tudo desfocado e pulsante e estranho. Um estranho aterrador.

Lavínia me contou depois que nesse instante eu cai de joelhos e gritei em desespero ao ver Ashardalon, pela segunda vez. E o mesmo Helgraf parecera desistir de lutar. Foi nesse instante que Urian ativou seu plano. Ele chamou pelos espíritos guardiões do cemitério de dragões dos Picos do Trovão por força e proteção, e os espíritos se manifestaram em dragões em formas espectrais, similares a imaterialidade de Ashardalon.

Urian então ativou as gemas, e usando o poder destes guardiões, direcionou o poder das Cores e destes mementos draconianos contra o Deus Dragão. Mas ao invés de simplesmente dissipar a essência de Ashardalon, Urian usou o poder das gemas para atacar a conexão Ekariana que se centrava nele, e se espalhava por todos os dragões e draconatos que compartilharam de seus sangue.

Ashardalon absorveu estas cores, ou pareceu absorver, e então parou, percebendo que havia algo errado. Ele brilhou com a luz de mil sois e então explodiu, silencioso, em uma detonação multoclorida, que banhou com a energia das Cores todo o local.



Nesse momento eu acordei. Como se revigorada pelas cores do mundo, eu fui arrancada do meu terror pessoal para ver como os Corrompidos, aterrorizados, fugiam, mas diversos deles caiam e derretiam e eram destruídos pelo poder das cores. Eu vi como os draconatos, o exército de Ashardalon, tremiam e caiam mortos, em espasmos de dor, medo e incompreensão. Eu vi como Endregun e os outros dragões aliados de Ashardalon rugiam de dor e desespero, e sem saber o que fazer, tentavam fugir para algum lugar, só para caírem ao solo, se desfazendo como queimados por uma luz que os incinerava por dentro.

Este efeito espalhou-se pelo mundo. Draconatos em todas as partes do mundo foram derrotados e em pouco tempo se desfizeram em sangue dracônicos, pútrido e ácido.

Todos os dragões que estavam alinhados com Ashardalon morreram na hora, assim como quase todos que seguiam Darigás e Urian. Assim, os dragões se tornaram uma raça extinta, com todos os grandes anciões mortos, e somente os poucos sobreviventes sendo aqueles que se esconderam bem o suficiente de Ashardalon e decidiram ficarem longe de Darigás. Centurias iriam se passar até que estes poucos dragões tivessem idade suficiente para se reproduzirem e repopularem o mundo com novos dragões.

Os corrompidos quebraram suas horas e correram, afugentados, de volta a seus buracos fétidos e negros. Eles ainda existiam, e diversos deles sobreviveram, mas tinham perdido o propósito e coesão que os tornara tão letais.

Assim, a guerra terminara.

--

Ladrão 8, 14 4e

Diário,

O Patriarca morrera hoje.

Muitas pessoas sobreviveram a batalha de Dar Dohakro, e dizem que principalmente a ajuda trazida pelas forças de Irritaria.

Urian nos chamou, a mim, Lavínia e Helgraf, e nos contou que o poder das gemas era grande demais para ele segurar. Que nenhum mortal deveria fazer isso sozinho. Ele iria morrer, e tinha certeza que ninguém iria sentir sua falta. Ele disse a nos que utilizou o poder das gemas para purificar os seus paladinos da macula de Ekaria através da conexão que compartilhavam, e agora eles poderiam espalhar seu legado pelo resto do mundo.

O mundo seria dele. Eventualmente.

A explosão das cores tinha destruído grande parte daquelas criaturas que quebravam o equilíbrio. O Sem Escamas, por exemplo, e outras morreriam com o tempo, como Barrim, um espectro que alimentava-se do caos e do poder da gema branca.

Ele, com o ultimo resquícios de energia das gemas, fizera elas sumir do mundo. Elas não seriam encontradas novamente, pelo menos, não tão cedo, disse ele. Eu abracei ele e agradeci o que fez por mim, mas ele não retribuiu.

Finalmente, ele deu uma última ordem: continuar com o plano. Povoar o mundo, defender o que sobrou dos humanoides e da sua civilização, e terminar com o resto das criaturas inumanas que dirigem o destino dos homens. Os mortais agora eram senhores do seu próprio futuro.

Dito isto, ele pereceu, sem demostrar dor, sem demostrar cansaço ou derrocada.

Lembrei de um poema que alguém me contou faz anos:

"Oh, por uma voz como um trovão,
E uma língua, para afogar as trompas da guerra!
Quando os sentidos estremecem,
As almas são levadas a loucura,
Quem poderá resistir?
Quando os espíritos dos oprimidos
Lutarem no ar carregado por ira,
Quem poderá resistir?
Quando os redemoinhos de fura descerem do trono dos deuses
E o franzir de seu semblante unificar as nações,
Quem poderá resistir?
Quando o pecado voar bater suas longas asas sobre a batalha,
E as lesmas se regozijarem no solo repleto de morte,
Quando os espíritos forem lançados ao fogo imortal,
E os demônios se regozijem sobre a matança,
Quem poderá resistir?"





EPÍLOGO



***Helgraf***


Ilustre Lady Katrin, Grã-Mestra dos Paladinos da Ordem do Dragão,
Na ausência de Ilithinem, o Ancião, Grão-Arauto da Ordem do Dragão,
Na ausência de Urian, Coração de Dragão, Patriarca da Ordem do Dragão.

Talvez seja meu último relatório antes da restruturação da Ordem do Dragão, um último ofício, para não dizer um legado, que me fora deixado pelo Grão-Arauto, se em nossa última conversa havia jocosidade entre sua permanência/aposentadoria na Ordem e o seu título - o Ancião - a piada final fora a sua quando descoberta a real identidade, Daregas. Um último sacrifício, tanto quanto milhares outros o fizeram.

A presença da Matriarca em uma missão diplomática causara os efeitos pretendidos, ataques diretos à sua pessoa e suas decisões, tanto mais quanto às próprias decisões da Ordem, causando os furores necessários ao protocolo. De fato pude acompanhar um afastamento da Matriarca, que segundo os relatos em seu registro interno, era cercada de seguidores, qual fora minha surpresa ao ver que eram raros os que permaneciam ao seu lado de bom grado, e estes, pereciam feito mariposas em choque ao fogo.

Talvez o pouco convívio com o Patriarca a tornara ainda mais dura, que não seja dito que ambos eram rígidos em suas convicções, mas a Matriarca não tinha a mesma autoridade, contava com acompanhantes, não seguidores, heróis, não soldados. Talvez o rumo fosse diferente se ela fosse tão carismática com os que a rodeiam quanto é para o povo.

Seu destemor frente aos perigos é digno de nota, não por menos, afinal, foram seus feitos que chamaram a atenção do finado Patriarca, que o Criador o guarde.

Não acredito que se tornaria uma boa substituta para a figura do Patriarca, talvez ninguém o seja, mas a Matriarca sempre foi e será uma figura do povo comum, e esse, é o melhor trunfo que a Ordem pode esperar dela.

Lavínia desempenhou bem o seu papel como Sacerdotisa de Naiuray, seu jeito selvagem e de poucas palavra fora efetivo ao chocar a audiência, ainda que estivessem a parte da Igreja concedida à Senhora da Lua. Talvez nunca tenha encontrado uma bruxa como ela, de fato nunca "interagira" com tantas desde que me fora outorgada a tarefa de acompanhar a Matriarca.

Ainda que ao longo de nossas andanças o choque de nossa fé tenha sido unilateral, pude compreender que parte de seu comportamento se devia à solidão e perda que sofrera, desde seus pesadelos e devaneios sonâmbulos, até suas declarações quando do retorno dos portais. Acreditava ser uma figura única até nos depararmos com Nuália... faces opostas de uma mesma moeda, ou, irmãs de um amargurado destino?

Lavínia não estava preparada para o sacrifício, e talvez essa seja sua sina, seu exterior sempre demonstrou um temperamento irascível, mas nos momentos finais vi... compaixão... quantas outras Bruxas tiveram a vida ceifada com o mesmo olhar e clamores de  misericórdia? Corvobranco me treinara para tais situações, mas e ela?

Rezo ao Criador que ela encontre seu lugar no mundo, e principalmente, pessoas com quem compartilhá-lo.

Medéia foi – a meu ver - quem mais sofrera, talvez eu tenha o maior conhecimento de causa do que sentira com o sangue corruptor.

Seria correto dizer que fora afortunada ao sobreviver? Eu perdera parcialmente a visão - Glória ao Criador - mas ela, secara como um ramo sob o sol forte, a força e o vigor que foram motivos de orgulho e reconhecimento, agora são uma amarga lembrança, constantemente lhe jogado ao rosto ante os títulos que lhe foram outorgados.

Ainda assim, seu conhecimento ainda é válido para a Ordem, por mais que os honrarias pesem-lhe como uma ofensa, não podemos deixar de lado sua experiência, por mais que o sacrifício do Patriarca e seus acólitos tenha extirpado os dragões, Ekaria ainda é uma ameaça a ser combatida e ninguém melhor que ela para repassar a experiência vivida aos cadetes.

O Patriarca está morto.
Vida longa a Ordem do Dragão.
Sob as bênçãos do Criador,

Helgraf Blackthorne, Gran-Arauto da Ordem do Dragão.



***Lavinea***

 
Para meu amado Joseph:

Eu vi coisas demais Joseph, e sinto que estou enlouquecendo, as brumas, o véu, tudo é tão perto e tão longe, nem mesmo o tempo faz mais sentido, ou a existência e suas infinitas possibilidades. Veja meu amor, estou eu aqui escrevendo uma carta, que lerei em frente ao espelho para ti, mas eu sei que está errado, que os olhos olivados que enxergo não são os seus, mas desejo que sejam.

Você me responde, mas pode ainda sentir meu cheiro? Sente que desde que refundei meu credo em Hamask voltei a usar almíscar como tanto gostava, meu cabelo agora é azul brilhante na altura do meio das costas até minha cintura, cacheados como costumava preferir. Decidi que seria melhor voltar aos tempos de glória que tive ao seu lado do que morrer ferina  como me tornei, não que não abrace meu dom com amor, mas honrarei o caminho que me ensinou e que mudou minha vida.

Eu não era nada, apenas serva, apenas escrava, me tornei sua esposa, seu braço direito, preguei contigo e vigiei tuas noites, mas não pude impedi-lo de morrer quando a febre tomou conta, sabe disso não é? Sabe que fiz o que estava a meu alcance e tentei tudo, mas ninguém pode matar o tempo. Não naquela época, naquela época eu não saberia. Hoje tudo é diferente, mas faz tempo demais. Além disso, depois do Salamandra jurei nunca mais amar, se meu coração for de alguém nunca mais será meu, e eu preciso dele, como preciso de minhas garras e de meu pelo. Precisei deles quando caminhei pelo Vale da Sombra da Morte em Kerra e esmaguei e queimei dúzias de corpos possuídos, porque os demônios tomaram contas dos corpos, porque não há honra ou beleza na guerra e há pessoas ruins o suficiente para não queimar seus inimigos...e eles gemiam e se arrastavam num lodo verde e fétido e eu os esmaguei, todos eles e os queimei, e queimei parte da dor de ter perdido você.

Achei que estava enlouquecendo de dor, achei que estava enlouquecendo de medo, mas era somente a febre, meu corpo aceitando a fera, foi um preço alto provar meu valor ao chefe Leão Branco e seu bando, mas eu provei. Eu lutei como humana ao lado de feras, expulsamos cultistas de Ekaria de nossas terras, buscavam os serpentideos eles disseram... morreram ao sol sem encontra-los, mas eu fui mordida, e veneno se combate com veneno, foi transformada, e sobrevivi. Lavinea A Pura, rebatizada, Lavínea Garra Prata, mas eles me passaram todo conhecimento que tinham sobre os filhos teriantropos de Naiuray, e isso valeria a pena, minha senhora não seria apagada da história, assim como teu Asvar não será, ele mudará de nome e terá uma face cruel no futuro, mas ele estará lá com a terrível alcunha de “O Criador”.

O futuro é tão feio Joseph, tão ignorante e cinza, e eu vi como será e vejo passo a passo agora como rumamos para ele, Urian fez o que pode, não bastou, não significou nada, continuamos castrados, a política ainda é mais forte que a o Fogo da Alma. Lucian, Nuália, mortos sem escolha, porque cumpriram o papel que  o destino os reservava, e eu, fui somente a mão que segurou a faca.

Tantas possibilidades, tanta esperança, e eu fui incapaz, eu fui burra e simplória, eu não encontrei o Azul e suas infinitas possibilidades.

Quando os sonhos contigo surgiram e me falou de Adventia, quando passei a ouvir teus sussurros e ver teus olhos nos espelhos e na fumaça, quando as imagens vinham como ondas eu achei que tinha encontrado a minha missão no mundo, que brilharia trazendo Naiuray a sua glória. Busquei toda e qualquer pista sobre a varinha, percorri florestas, grutas, clamei ao pai dos subterfúgios por proteção. Recorri ao equilíbrio de Salamandra, que me guiou a entender tudo, visões ou portas derrubadas ou psiquismo ou loucura, não faz diferença o nome que derem, porque eu chamei de Missão, Objetivo de Vida, Renovação de votos.

Cacei Adventia com todo meu instinto, assim como cacei e perdi feio pra Nuália diversas vezes em Khain, mas queria impedi-la de destruir os fiéis, então, muitas vezes apenas ganhei tempo para que fugissem...eu afinal não seria aniquilada. Ou acreditava isso, a benção da ignorância me era uma dádiva naquele tempo.

Encontrei o guardião de Adventia, um dos últimos sacerdotes vivos, assim como eu... O Lobo Branco, não era um teriantropo, irônico. Era apenas velho...poderiam chama-lo de raposa cinzenta.  Um homem de fé, eu devia isso a minha Senhora, deveria tentar tanto quanto ele. Eu fui para o futuro, promovi todo tipo de emoção: medo, desconfiança, piedade e admiração. Vincent Calhart, um nome, um rosto... um par de olhos azuis. Roderic, um homem, um sobrevivente -as marcas denunciam-, um sábio, ou apenas um louco consumido pelo azul como eu, um louco funcional.

Eu perdi tudo meu amor, eu perdi você, eu perdi Xoralaath – mas ok, o Salamandra é legal e leal; eu perdi batalhas, eu sei o que minha fé vai se tornar num futuro ignorante e feio, eu perdi Nuália e Lucian e a chance de salvar Nuália. Naiuray me deu tudo, me mostrou  quem era ela e como nunca agiu senão pelas forças do destino, as fortes cordas superiores que nos controlam como marionetes e eu não soube salvar, não consegui salvar, pelo contrário eu matei um inocente que conheci e vi toda emoção e dor , toda vontade de libertar-se e o peso do destino não deixando, eu matei esse inocente em nome de diversos outros que não conheço, não vi. Isso é justo Joseph? Essa era minha missão? Não, não era, eu deveria ter sido mais e melhor, deveria ter ido além, encontrado as possibilidades, salvado nosso mundo. Não consegui.

Falhei mas não falharei outra vez, meu evangelho está quase pronto, nomearei um segundo sacerdote para guiar os exilados da lua azul em Hamask e eu farei justiça, custe minha alma, minha pele ou minhas presas. Adeus Joseph, não vou mais alimentar a ilusão de que está aqui comigo. Tu foste de longe a melhor e maior alegria de minha vida, mas esses olhos olivados no espelho e nas brumas, não são meu marido. É algum espírito, algum fantasma, ou meus próprios fantasmas. Erika está chegando para me exorcizar e exorcizar esse quarto. Minha aliança de prata que tanto me fez orgulhosa ficará enterrada aqui, em Hamask, onde refundei o culto e protegi os fiéis. Tua Lavínea A Pura morre hoje, e Lavínea Garra de Prata é a única sobrevivente disso tudo.

Eu vou deixar tudo em ordem e certo, porque hoje, parto para a maior e mais longa caçada da minha vida, talvez a última. Caçarei os injustos, até deles sobrar somente a ossada. Essa merda de mundo que restou vai ser melhor, eu juro por Nuália e por Lucian.



***Erika***

Diário,

Faz meses que não escrevo. Esta são as últimas páginas que escreverei narrando minha vida. Depois da morte do Urian, eu perdi a vontade de continuar a fazê-lo.

O mundo continua. Em desespero, em tristeza e dor. Não passa um dia sem que cheguem notícias de conhecidos que morreram, de lugares que deixaram de existir. O desespero de perceber que não há futuro começou a tomar conta de Dakhanis, Rakshas, Alaranis, Akiaks, Orokuls. Nações entram em guerra. Nações se desfazem. Ódio por humanos, Thaar e Valaryn que conseguiram um jeito de sobrevier.

Mas há esperanças. Apesar de tudo, crianças nascem em Hamask e em Khain e em outros lugares. Haverá um futuro, mas será somente para Thaars, para Valaryns, para Humanos. Grão Arauto Helgraf acredita que provavelmente, nos cantos escuros do mundo, alguma ou outra sociedade descobriu como sobreviver. Nunca mais haverá impérios de outras raças, mas talvez elas não estejam por completo esquecidas.

Ele agora tem diversos filhos, e sua esposa está esperando uma nova criança. Apesar das dificuldades, ele parece estar mais radiante do que nunca.

Lavínia tem se tornado uma figura proeminente em Hamask, mas eu sei que ela não se perdoa do que teve que fazer com Nuália. Ela viu os excessos da sua fé e como os inocentes são vítimas dos fortes o tempo todo. Como Nuália, que passou uma vida sento usada por monstros, e nunca teve uma escolha, uma vida, felicidade real. Isto parece remoer por dentro.
Mas ainda há futuro. Um futuro imperfeito, quebrado e cheio de dúvidas, mas ele é nosso.

Para mim, tem sido dias difíceis. Urian deixou muitos planos abertos e aparentemente somente eu e Illizarelli sabíamos de grande coisa, e ela já declarou que não iria ajudar. Os paladinos, guardiões e arautos vem até mim para pedir comando, e eu faço o melhor que posso, mas temos recursos pequenos e grandes problemas.

As noites tem sido difíceis. Os pesadelos ainda pairam em minha mente, e agora eu sei que em algum lugar dentro da minha mente há uma sombra sempre presente. Não restou para mim ninguém para falar, para conversar. As pessoas não precisam saber de meus problemas. Elas querem que a Matriarca se mantenha firme e corajosa, e eu dou isso a eles, mas todos os dias, de noite, vem aquela vontade de extravasar e não tenho ninguém. Eu tenho pensado muito em Urian ultimamente. Cada vez que penso nele, me corta a alma o quão injusta fui com ele, e o quanto sua presença me enchia de proposito, que eu não percebia.

Eu acho que o maldito tinha razão desde o dia que nos casamos: Eu eventualmente aprenderia a amar ele. E só entendo isso agora, meses depois, nas noites que eu sinto enorme falta da mera companhia dele, das conversas sobre coisas pequenas, no jeito ele se esforçava para me agradar. Cibele me disse uma vez que nos só percebemos quanto precisamos de uma coisa quando perdemos. Assim me sinto. E é a pior sensação do mundo.

Urian tinha razão, eu aprendi a amar ele, mas fui tão idiota que não percebi.

Mas não tenho tempo para isso agora. Não há tempo para mim agora. Eu vou engolir esta magoa e esta tristeza como sempre o fiz. Pessoas ainda estão morrendo e sofrendo e eu posso ajuda-las. As pessoas precisam de alguém para se inspirar e alguém que saibam que se importa e olham para mim. Não vou decepciona-las.

É preciso. É o correto a ser feito.

Eu pego este diário, estes muitos volumes de coisas escritas. Tantos momentos que eu vivi em este mundo, coisas que vi que ninguém mais acreditaria. Conheci tanta gente maravilhosa e tantas pessoas terríveis. Eu tive o destino de tanta gente em minhas mãos e ainda tenho. Mudei o mundo, criei e acabei com lendas e histórias. Eu deixei uma trilha de sangue, de corpos, de vidas destruídas para trás, mas também ajudei tantas pessoas, ajudei a forjar o futuro ao lado de heróis e lendas...

Eu carrego em mim centenas de segredos e mistérios. Mas este mundo é um lugar imenso, e ainda há segredos sem fim, mistérios sem fim, e um horizonte infinito de possibilidades para os que virão.

Eles provavelmente não lembrarão de minha vida e esquecerão meus feitos e de todos aqueles que lutaram para que este mundo sobrevivesse. Mas nosso legado é outro. Eu compreendo agora que somos como Savith e Aveshai: Somos as pedras que lapidam o caminho para as próximas gerações, e meu legado viverá pelo destino do mundo, no sangue dos meus filhos, e não necessariamente em sua memória. 

Foram anos longos, e difíceis. Houve felicidade e tristeza, mas tudo valeu a pena.

Haverá outras aventuras, haverá outras felicidades, maravilhas, medos e terrores, mas serão outros nomes. Entendo que minha parte na história eu já fiz. Continuarei vivendo e lutando até que não possa mais, mas o futuro é de outros.

Acho que fiz bastante para uma criança pobre das ruas frias de Brrzengard!

...

Bom. Este é o adeus, meu Diário.

Matriarca Erika Liv Midnattsol da Ordem do Dragão



***

Notas do Autor


E com isso completo minhas anotações, caro leitor. Em suas mãos tens as memórias de eventos a muito passados. Esses nomes, essas pessoas e esses reinos podem não lhe fazer sentido, e na bibliografia que se segue esforcei-me em explicar tudo o que pude encontrar.

Peço sua compreensão, caro leitor, pois os séculos que chamamos hoje de Idade das Trevas viu os povos tornarem-se incultos e insulares. Esse grande mal, essa união entre os Dragões de outrora e a tão mencionada Corruptora, é o responsável pelas ruínas que existem além das colinas. Pelas cidades de outrora, castelos maravilhosos e abandonados.

Podemos irar-nos perante nossos bisavós e antepassados, que esconderam-se em ruinas ou queimaram livros antigos e embolorados atrás de combustível para alimentar suas fogueiras. Que valor tais tomos de conhecimento teriam em um mundo onde pequenos clãs lutam para sobreviver? Que sequer sabem ler o próprio idioma, quem dera o de Gigantes que viveram em ruinas que um dia foram castelos? Perdoemos a ignorância de nossos anteriores, em apagar a memória desses Precursores. Se mesmo na Sagrada Hamask pouco aguentara as revezes do tempo, como podemos culpar aqueles que não foram tão afortunados a serem descendentes dos vitoriosos?

Não posso deixar de agradecer aos Cinco Grandes Exarcas de Konsvow pelo apoio fornecido, e o Sacro Imperador por apoiar e financiar essa pesquisa. Fora sua generosidade que me permitira visitar ao longo dos últimos trinta e dois anos os cantos mais escuros do mundo atrás de relíquias, relatos sobre os eventos desses Precursores. Também agradeço a Igreja da Luanegra, que fornecera textos antigos e ocultos sobre a Profeta Aliah, que alguns acreditam que seja a mesma figura que a sacerdotisa Lavinea listada nesses relatos.

Acredito que nesses volumes que terminara de ler eu encontrei tudo que há para ser encontrado sobre essa terra de terrores, dragões e heróis, essa fantástica Alancia que parece mítica, irreal, perdida em um passado longínquo. Por muitos anos não conhecemos as lendas dos Precursores, e não soubemos o que fizera com que seus reinos sumissem. Por quantos séculos supomos que sua civilização simplesmente chegara ao ápice e então caira sobre o próprio peso? Essas fontes nos contam uma outra história, a de um povo que sofrera, que vira seu mundo cada vez mais caótico. Um povo que fora salvo pelos diversos heróis que lemos nessas páginas.

Quem foram esses heróis? Não sabemos dizer. Como foram suas vidas? Não posso afirmar com certeza.

Apenas seus nomes sobreviveram.

Aline, Amon, Bum, Caesar, Cassius, Celeste, Cibele, Daigon, Diogenes, Dukashki, Elizabeth, Erika, Felicia, Galatea, Grontor, Helfraf, Helmar, James, Kaba, Karlannar, Kiara, Kjerstin, Lavinea, Layon, Luna, Luriel, Mariache, Mario, Mihael, Miroslav, Samira, Siegfried, Steven, Todd, Xeloksaar, Xoralaath, Yoshida, Zian.

Esses e quantos outros são heróis e vilões de uma época que passou. Perdemos tanto de nosso passado, caro leitor, que corta meu coração não saber quem esses homens e mulheres foram.

Sou um erudito, e por isso não posso afirmar que mesmo os relatos que acabaram de ler foram realmente escritos pela Aclamada Erika. Mas se perguntarem ao homem, o estudioso, aquele que segue os ensinamentos do Karismo, repassados em nossa Sagrada Hamask desde aquela época, vindos da boca da própria Aclamada, se perguntarem a esse homem terão uma opinião diferente.

Eu acredito, caros leitores. Todos esses longos anos, em tardes escaldantes e manhãs geladas onde apenas a companhia de meus colegas estudiosos mantinha-me descongelado; em ruínas, casas,  parques, ou no conforto de minha casa e a nossa sala de estudos; ao longo de dias conturbados e noites que passamos em claro; ao longo de todos os anos eu sempre acreditei nessas histórias. Para mim, caro leitor, é como se eu as tivesse vivido. Normalmente como o espectador que acompanha uma história temível, mas por outras eu me sentia na pele desses heróis. E por quantas vezes essas histórias me mantiveram coeso, e acalmaram meu coração ou de meus companheiros.

O Karismo nos diz:

"O mundo pertence à vós.
O Compreendei.
O Dominai.
Fazei valer a chance,
Fazei valer o preço,
Que os Precursores pagaram por ti."

E nós o fizemos. Vivemos em um mundo seguro hoje. Compreendemos os horrores que existem além do Espelho, mas não nos curvamos perante ele. Nós comandamos o Espelho. Nós possuímos navios que viajam pelas ondas doces do Vasto Mar; e  navios que deslizam pelas nuvens conectando as Três Grandes Nações. Nós vivemos em uma era de tecnologia, conhecimento e iluminação que é muito mais que nossos Precursores sequer imaginaram. Sabemos que as outras terras que não seguem nossa filosofia também devem a esses mesmos Precursores que pagaram o preço final.

E agora, nessas páginas, tu conhecera como foram suas vidas. Governadas por horrores. Sem controle de seu destino. Temendo o Espelho. Temendo dragões que vinham do céu. Temendo horrores nascidos da terra purulenta.

Temendo uns aos outros.

Então não, meu caro leitor, eu não acredito que essas anotações que acabara de ler, que traduzi desse antigo idioma para a Konsvar, sejam uma mera ficção, livros escritos para serem vendidos em mercados dos Precursores.

Não, eu acredito que essas histórias são reais, e o sangue, lágrimas e suor desses heróis impregnam esses relatos.

Eu quero morrer acreditando nisso. Que tudo isso foi verdade. E para mim o foi.


Mestre Volmnar, Primeiro Escriba* de Konsvow


Nota do Editor: Excelência Volmnar ainda era Primeiro Escriba na época que compilara essa obra. Essa edição de luxo de sua obra-prima, Segredos de Alancia, é escrita em comemoração à sua coroação como Sacro Imperador de Konsvow, mas decidimos manter o título que possuía na época por razões históricas.