Diário de Erika - 17  

Posted by Diego Erik in

Sessão 17

Trechos dos diários de Erika

Diário,

As fadas não eram fadas. Eram Alaranis. Senti-me um pouco decepcionada, confesso, mas da mesma forma, eles são meio que fadas também, então é quase igual. Os soldados que nos levaram até o acampamento deles eram sempre calados, e nos mesmos não nos sentimos a vontade de falar.

O lugar que eles estão acampando é uma ruina envelhecida, talvez pertencente aos Qesires de outrora. Havia diversos Alaranis, mas não é uma cidade, é mais um posto avançado. O lugar tinha sido limpo e havia formas cinza armadas espreitando pelo local.

Apesar disto, também havia pessoas comuns. Ao que parece servos, ferreiros e gente que ajuda num acampamento militar.

Pediram nossas armas e nos mandaram a nos limpar para sermos recebidos pela senhora do fogo, que é a líder destes Alaranis.

Ao que parece o senhor Volksar faz um grande sucesso entre os Alaranis. Eles sussurram e apontam pra ele, e dão risadinhas ou sorrisos. Ele também é claramente melhor tratado que nos, acho que por ser um Alarani, como os outros.

Por outro lado, a senhorita Lavínia tem uma reação ao contrário. As pessoas olham para ela como se fosse um monstro, e lançam para ela olhares de repulsa, desprezo, ou na melhor das hipóteses uma curiosidade mórbida. Todavia, ela age como se estivesse acostumada a isto. O que é meio triste.

Fomos dirigidos a uma casa do banho por um sorridente diplomata que só falara silari, mas eu tenho certeza que ele entende o que falamos. Lá, somos deixadas a cuidado de uma moça que nos explica longamente como tomar banho. Embora seja verdade que estamos faz dias viajando no meio do mato e do barro, e que precisamos de um banho, não acho que seja só isso. Talvez os Alarani achem as outras raças fedidas. Deve ser alguma coisa que ainda tem dos Qesir.

Em todo caso, estávamos precisando de um banho e a ajuda da mocinha foi bem vinda, nos ajudou a esfregar as costas e depois a nos pentear e fazer nossas unhas. Lady Annika realmente se incomodou com isso. Eu também, mais ou menos. Não gosto de pessoas me servindo, mas quando estava em Hamask elas faziam tanta questão que terminei desistindo e agora deixo. Além do mais nenhuma de nos fala silari e ela claramente não entendia o que falávamos em mimica.

 Mocinha é mais um nome, ela deve ser bem mais velha que eu. Os Alarani envelhecem mais devagar.

Os rapazes também tomaram banho, e o ser Helgraf inclusive teve a barba cortada. E ficou melhor. Parece mais nobre e honrado sem a barba desgrenhada. Acho que se ele cuidasse pelo menos da barba ficaria melhor, mas ele não o faz, e cresce uma digna de um highlander.

Em fim, estou escrevendo isto enquanto espero tudo mundo ficar pronto. Vamos falar com a Senhora do Fogo daqui a pouco e depois disso eu continuo a escrever.

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Diário,

Foi algo simplesmente incrível! Conheci um meio dragão! A senhora do fogo na verdade é uma meia alarani meia dragão filha do sem escamas que agora está mumificada e projeta sua consciência por ai. Ou algo assim. Meio múmia meio alarani meio dragão. Acho.

Em todo caso, foi da seguinte forma nossa visita.

Saímos daqui e fomos até uma arvore oca onde ficava o templo. Tinha uma pintura de uma mulher com elmos com chifres no meio de um campo de batalha, com as mãos cobertas em sangue.

A sacerdotisa apareceu e nos fez fazer um ritual onde colocávamos um pouco do nosso sangue num cálice e oferecíamos aquela deusa. Ela explica que é a deusa da Lua e da Guerra, algo similar a Nayurai, o que deixou a senhorita Lavínia claramente mais a vontade com a imagem.

A moça começou a explicar alguma coisa em silari e confesso que não prestei atenção. Ela tinha um decote bem revelador e era difícil não olhar para ele. Parece que os Alaranis gostam destas roupas coladas e reveladoras, e as vestimentas da sacerdotisa eram especialmente reveladoras. Acho que também porque ela tinha um corpo bem mais bonito e isso a deixava mais exagerada. Inclusive, as roupas que nos passaram para visitar eles têm as mesmas qualidades. As minhas são quase translucidas e bem soltas. As roupas dos demais seguem padrões similares. A da senhorita Lavínia, ficaram muito bonitas, ao igual que a do ser Dominic. Dakhanis costumam ter bonitos corpos. Já a do ser Helgraf ficou estranha. A do senhor Volksar ficou ótima.

Em todo caso, ela nos levou até onde estava a senhora do fogo. Ao começo o que vimos foi uma figura estranha e mumificada, sentada num trono. Ela tinha... Chifres. E rabo. Era uma figura estranha e grotescamente seca e velha.

O lugar inteiro era úmido, com vapor, e tinha diversas telas que separavam os cômodos.

Ela tinha chifres. Como de um dragão. Mas naturais.

E respirava lentamente.

De repente, apareceu na frente de nos uma das figuras mais estranhas que tinha visto: uma mistura de um alarani com escamas, garras e chifres de um dragão. Ela se apresenta como sendo a Senhora do Fogo. Era ao mesmo tempo bela e aterradora. E imensamente hipnótica. Era difícil tirar os olhos dela.

Era a imagem de uma figura de outra era, de outro mundo. Algo que não devia existir, mas mesmo assim, ali estava. Tanto a figura mumificada, impossivelmente velha, e a imagem que projetava, tão viva que não parecia uma ilusão. Meio mortal e meio espirito.

Eu vi muitas coisas na minha vida. Muitas coisas que poucos olhos mortais viram e alguns segredos que sei que só eu carrego. E ver esta figura, e tentar imaginar o que ela representa, é algo... Chocante. Imagino que para os demais seja mais ainda. Talvez eles não entendessem ainda o que viram, mas foi algo privilegiado. Um dos segredos do mundo.

Ela nos revela que ela foi um dos motivos da guerra das estrelas, e que seu pai era ninguém menos que o dragão sem escamas. Ela era uma figura tão estranha que ajudou a provocar o nascimento de uma raça.

Ela nos pede ajuda. Diz que estas terras outrora pertenceram aos antepassados dos Alarani, e que os Orokul guardam como se fosse suas terras sagradas, mas que na verdade é o legado do povo dela. Um lugar onde viver, aonde os pais dos pais deles viveram, muitos anos atrás. Ela diz que faz 6 anos estão tentando retomar seu lugar, mas embora no começo tenham tido bastante êxito, os Orokul rapidamente aprenderam a combate-los, e agora estão isolados, pois seus portais de sombras foram fechados e seus números diminuídos, com armas de ferro frio e proteções contra o avanço de seu sangue de fada.

Ela nos pede para interferir, alterar a balança, uma vez que não somos como eles, e como nos, eles não esperam.

Em troca, ela nos levará até onde o sacerdote de Nayurai está. Ela afirma que ele foi atrás do sem escamas. Mas só nos vai ajudar se a gente ajudar os alarani.

Eu deixei claro para ela que não tínhamos a intenção inicial de enfrentar os Orokul, e que iriamos pensar. E assim, pedi tempo para discutir com meus companheiros.

Temos que tomar uma decisão agora. Eu acredito que ela foi sincera. É verdade que dizem que os Alarani são enganadores normalmente, mas não vejo o porquê ela se exporia desta forma. Devemos ajudar os Alarani numa guerra que não é nossa e ferir muita gente para conseguir nosso objetivo, ou tentar sorte com os Orokul, que podem não nos receber bem, e que talvez não façam ideia de onde está o sacerdote.

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Diário,

Tomei minha decisão. Ao final, a decisão é minha, assim como as consequências.

Iremos ajudar a Senhora do Fogo. Mesmo que o caminho para os Orokul não leve necessariamente a uma violência maior, a ajuda deles provavelmente será muito difícil de conseguir, muito demorada e talvez muito mais limitada. Não tenho, não temos, tempo nem vontade para investir em uma aposta quando o sacerdote está tão perto.

Lamento pelos Orokul. Sinceramente não queria esta guerra, mas ela é necessária. Há certo paralelismo entre a situação da Ordem do Dragão e a situação destes Alaranis. Não posso senão sentir uma empatia por eles. Talvez, confesso, seja certa antipatia pelos Orokul. A experiência que tivemos com os senhores dos céus não foi das mais benéficas, e tirando as vidas que irão se perder, não tenho nada contra este combate.

Mesmo assim, gostaria que não houvesse matanças. Pensei em tentar falar com um druida, com um sábio respeitado pelas tribos para tentar traçar uma paz. Mas não há coexistência: Os Alaranis querem exatamente aquilo que os Orokuls da tribo do Coração Esfumaçado não querem dar. E ambos os lados tem razão.

Lady Annika aponta como estamos fazendo o trabalho sujo da Senhora do Fogo, e como isto é uma péssima ideia: Ela não gosta de ser tão obviamente manipulada. Eu entendo e sinto o mesmo que ela. Mas de todas as formas que vemos a outra opção é sempre a duvida: Os Orokul irão nos ajudar? Não temos certeza sobre isso, sequer a esperança de uma boa vontade além de uma amizade com um chefe que pode ou não nos ajudar, e sinceramente, pode ou não estar vivo.

Talvez ele queira também a guerra contra os Alarani, ou nos pedir para matar alguma coisa. Ou sei lá... Não acho que ele iria colocar místicos e caçadores de sua tribo para nos auxiliar de forma gratuita.

A senhorita Lavínia apoia minha decisão. Sinto que ela não tem muita vontade de ficar tentando agradar os estranhos Orokuls, e prefere lidar com alguém que a gente sabe o que quer, como a Senhora do Fogo. Os demais não se manifestam, apesar de perceber que Volksar prefere estar com os seus neste momento.

Seremos sempre os “capangas” de alguém nesta terra estranha. Então que seja por aqueles que nos oferecem o mais seguro.

Fomos falar isso com a Senhora do Fogo, que ficou feliz em saber. Agora iremos ajudar seus generais a retomar uma fortaleza ou cidade antiga dos Qesir. Que o Grande Lobo nos proteja.

Eu ainda quero perguntar à Senhora do Fogo sobre a Mirani. Já perguntei para dezenas de arcanistas, sábios e xamãs de diversos lugares, e ninguém soube me responder nada. Espero que com ela seja diferente.

No fim, a Senhora do Fogo me diz que gostaria de conhecer meu filho. Pessoalmente. Eu... Eu raramente penso sobre isso...

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Diário,

Estamos há alguns dias nas terras dos Alarani e estou me acostumando a eles. Um pouco. Eles usam essas roupas todos os dias, o que é estranho. A comida também é estranha. Falta carne e meus companheiros Dakhani sofrem com isso. Podem caçar, mas não estamos a vontade por aqui.

Volksar sai bastante e parece aproveitar o tempo que tem entre os seus. Ele é uma companhia bem requisitada entre estes Alaranis. De certa forma acho que ele deve parecer heroico. Como um herói de terras distantes no meio de uma aventura que os Alaranis só podem imaginar.

Eu sou reconhecida por alguns dos Alaranis também. Alguns deles escutaram histórias sobre mim, mas acredito que devam achar que eu era mais alta. Ou que lançava raios de fogo divino pelos olhos. Ou coisa parecida.

A senhorita Lavinia sofre com diversos graus de discriminação. Alguns alaranis preferem lançar olhares curiosos a distancia. Outros chegam a ponto de derramarem pitadas de agua ou bebida quando ela passa. Segundo ser Dominic isto é o similar a gospir no chão para nós. Que terrível.

Em terras humanas, ela tem menos preconceito. Ela é vista como um acidente estranho, mas o sangue de fada dela a deixa mais bonita em alguns aspectos e isto aliviam seu suplicio, apesar de ainda ser chamada de meia-fada ou cosia similar. Ou pior, meia-raksha. Aqui ela não tem essa barreira, e nos olhos dos alarani, os humanos devemos parecer muito agressivos, grandes e torpes. E ela tem isso tudo.

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Diário,

Nos sentamos para planejar o embate. O líder dos caçadores das sombras tinha um plano que era para nos atacarmos e matarmos os auguri, e assim evitar que lançassem mais feitiços de contenção contra os alarani. Por outro lado, a senhora dos arcanistas tinha um plano de infiltrarmos sigilosamente e desfazer as proteções mágicas que impediam as fadas de entrar no local. Em ambos os lados, era perigoso.

Eles nos explicam que nos primeiros meses da guerra, os Alarani tiveram muita vantagem, uma vez que os Orokul, que só podiam contar com sua força, estavam despreparados para um combate com eles, e lhes era impossível acompanhar as táticas avançadas das fadas.

Todavia, eventualmente os Orokul aprenderam a lutar contra eles, usar ferro frio e feitiços de contenção. Os alarani rapidamente perderam seu portal das sobras, muitos guerreiros e foram obrigados a recuar. Desde então, estão neste empasse, sem que os Orokul consigam esmaga-los, e sem que eles consigam revidar. Uma guerra fria de emboscadas e ataques rápidos.

Por isso, como a Senhora do Fogo falou, somos o diferencial que irá movimentar a balança.

Decidimos por ajudar a senhora dos Arcanistas. Lady Annika foi bem sincera ao descrever o problema que teríamos de bater de frente com orokuls, e a dificuldade que teríamos em acompanhar as táticas sóbrias de guerrilha dos alaranis: Não éramos nem ágeis o suficiente, nem rápidos o suficiente.

Vamos nos preparar para a guerra. Faz algum tempo desde que acompanhei um batalhão a um combate, e de novo senti o frio na barriga e a ansiedade pelo momento. Não tenho medo.

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Diário,

Estamos na véspera da batalha. O Senhor Volksar declarou que não iria lutar com nos, mas iria acompanhar seus companheiros caçadores das sombras. Eu teria gostado que ele nos acompanhasse, mas não... Sinto-me a vontade de tentar pedir nada mais a ele.

Partiremos em poucas horas para as terras dos orokul. É uma viagem de alguns dias.

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A batalha foi terrível. Annika morreu e Lavínia foi mutilada. Eu também estou bem ferida, mas ficarei bem. Elas não. Foi minha decisão que nos trouxe aqui. Eu devia ter sido mais sabia e prever isto. Eu devia ter sido mais poderosa e derrotar eles.

Agora Annika esta morta. Minha amiga esta morta. Em meus braços.

Sangue, fogo. Violência. Ódio. Uma torrente de emoções que poluem nossa visão. Inocentes mortos, matança e medo. Nada de honra, nem gloria. Somente o trabalho sujo.

A vitória é amarga.

Espero que não seja em vão.

Eu costumava ter uma forte fé no Lobo Branco. Mas desde a morte de Izack... O Lobo Branco deveria ser aquele que protege a matilha. Aquele que dá forças para enfrentar o inverno, por mais duro que seja.

Eu estou aqui, cada vez mais sozinha, vendo meus amigos morrerem, meus companheiros sofrerem. E eu continuo aqui, cada dia pior.

Não tenho como descrever a frustação que sinto. E a tristeza. Agora minha cabala. Meu grupo, se foi, tão breve quanto foi o de izack. Parece que dou um passo à frente, e dez param trás. 


This entry was posted on sexta-feira, dezembro 11, 2015 at 13:15 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

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