BL - Diário de Erika 29  

Posted by Diego Erik in



Sessão 29
(Antepenúltima sessão! Nervos à flor da pele!)


Espião 28, 14 4e

Diário,

Não tenho muito o que fazer agora. Na verdade, eu tenho. Mas não tenho como. Mais de uma vez já afirmei que mesmo estando dentro da Ordem do Dragão, me sinto isolada. Estas pessoas não são fieis ou devotas ou mesmo amigas minhas. Elas não trabalham por mim, ou acreditam no que faço, mas seguem porque são mandadas.

Por um lado, devo confessar que isto me desagrada muito, porque eu dependo delas para poder fazer qualquer coisa. Não posso sair e tentar fazer tudo sozinha, ou arranjar aliados do nada para me auxiliar. Eu fiz isso uma vez e o resultado foi duas cabalas de heróis mortos.

Por outro, me sinto menos responsável por eles e é mais fácil enxerga-los como recursos. Acho que isto é o que Urian deve ver sobre todos nós: peças em um enorme xadrez.

Estou incomoda com esta situação, com que me vejam como um recurso, algo descartável, mesmo que o fim seja algo maior.

--

Espião 30, 14 4e

Diário,

Pensei bastante e decidi que um bom caminho seria procurar o castelo de Izack. Odeio o plano do Urian, mas não tenho um melhor, e ninguém está disposto a me ajudar a pensar em algo. Talvez Izack sabia de alguma coisa, ou tinha outro plano, tenho certeza disso.

Lamentavelmente, o Patriarca não pensou igual. Ele me afirmou que a torre de Izack fora saqueada e depredada, e que nada de valor sobrara de lá. Ele sabia disso porque agentes da Ordem do Dragão tinham estado lá. Ele, obviamente, não permitiu que eu fosse.

Claro, eu sempre posso ir sozinha, pegar o barco e viajar um par de dias... mas de que adiantaria. Ele tem razão: Izack morreu faz quase dois anos, e eu tenho que superar isso.

Izack morreu porque não me escutou. Noor e seus companheiros provavelmente morreram porque me escutaram. Sinceramente, eu acho que trago má sorte às pessoas, que sou este agente da morte que vem semeando devastação na vida das pessoas.

Elizabeth provavelmente está marchando aonde seja que o Senhor das Moscas está. Urian não quer me dizer quem são as pessoas que foram, mas eu posso supor quem foi pela ausência. Tenho um mal pressentimento sobre isto, e ainda, no fundo, espero que Eliza não seja tão tola e orgulhosa de tentar enfrentar o senhor das moscas sozinha. De novo.

--

Rainha 3, 14 4e

Diário,

Estou morrendo de tedio e preocupação neste lugar. Estou quase recuperada da viagem pelo portal feérico, e estou aproveitando para passar tempo com meus filhos, estudar, treinar e ficar na cidade. As pessoas gostam de mim, ao que parece, e eu tento retribuir...

Faço caridade, ajudo elas no que precisam, ajudo na enfermaria pública, mas devo confessar que isto me parece mecânico, menos natural e gratificante do que era antes, quando eu podia caminhar tranquilamente entre as pessoas. Agora Medeia me segue como uma sombra e notei pelo menos outros dois agentes que me seguem pela sombra, certamente para tentar um assassinato, ou parar um.

Eu converso com estes thaars e humanos, com refugiados e pessoas carentes. Elas se assustam no começo, mas sempre terminam falando, desabafando suas histórias como se arrancassem tijolos das suas costas. Gilbert que veio de Nardonash e perdeu os dois irmãos. Nadia que vivia em uma fazenda ao norte que soldados de irritaria incendiaram por se negarem a deixar de comercializar com Hamask, Tehram que perdera a casa e a família para a Aurora Escarlate.

Eu escuto, atentamente, e tento lhes levar conforto, mas são tantos, e o desespero é tanto, que me sinto importante perante estas pessoas, que me pedem para falar com Xeloksar sobre casa e abrigo e comida. Já discuti com a majestade isso diversas vezes, mas é exatamente como falar com uma parede. Sei que não é ele que manda, desmanda ou comanda qualquer coisa nesta cidade, e o Urian está completamente desinteressado nestas pessoas. Me sinto de mãos atadas.

Eu não deveria estar aqui. Eu deveria estar procurando a maldita gema verde, ou fazendo qualquer outra coisa. O mestre das armas da ordem do dragão me proibiu de continuar treinando, ele disse que estou muito tensa e vou terminar machucando alguém.

--

Rainha 4, 14 4e

Diário,

Encontrei com o Helgraf hoje a tarde. Ele comentou que está fazendo algumas averiguações, algumas perguntas sobre como prosseguir com a ordem do dragão. Agora sem o Arauto-Maior Ellitinen na cidade, ele herdou muita da papelada para assinar e supervisionar.

Ele me disse que perguntou ao patriarca sobre os rebentos da guerra e outras coisas, mas Urian não deu nenhuma resposta clara.

Eu tento fazer minhas próprias averiguações com a ordem do dragão e os sábios, mas sempre recebo respostas estoicas ou nenhuma, como se o patriarca tivesse comandado para me deixar no escuro. Eu sei que ele provavelmente fez isso achando que eu poderia descobrir aonde a gema verde está ou outra coisa e sair deste maldito marasmo.

Eu faria isso.

Detesto ter que ficar aqui, esperando e fingindo que me interesso por heráldica e por conselhos com nobres locais que não me interessam. Os arautos adoram me jogar para fazer esta politicagem barata, para dizer a gente desesperada que a ordem o dragão e Hamask farão o possível, quando sei que não há nada a fazer.

O mundo está explodindo la fora e eu aqui, tendo que fingir que está tudo bem.

--

Rainha 6, 14 4e

Diário,

Deveria eu ter ajudado a Elizabeth? Ainda há tempo, calculo eu. Se eu forçar minha posição, poderia descobrir rápido aonde Ellitinen e os outros foram, e em um grupo pequeno poderia me mover rápido o suficiente para alcança-los. Ou mesmo chegar aos estrelas negras.

A Eliza provavelmente irá juntar seus aliados, os estrelas negras e muitos outros, provavelmente Brianna e até Van, e irá tentar enfrentar o Senhor das Moscas. Eu tenho certeza que não importa quão formidáveis sejam suas forças, não conseguirão derrotar o senhor das moscas. Se ele está mesmo com a gema verde, deve ser um oponente fenomenal como foi Aurora Escarlate, um inimigo tal que nem mesmo os exércitos de uma cidade conseguiram derrotar.

Eu poderia desafiar Urian e me juntar a ela, e dizer o que eu sei, e talvez faze-la desistir disto. Ou mais, faze-la se unir a ordem do dragão.

Mas Eliza fez suas escolhas assim como eu fiz as minhas. Ela decidiu jogar “do lado dela”, nem auxiliando a Cabala de Izack, nem me ajudando quando esta foi destruída. E mesmo quando estava com a Ordem do Dragão, ela ainda continua a jogar o “lado dela”.

Urian tem razão nisto: Se a Eliza escolheu enfrentar o Senhor das Moscas sem o auxílio da ordem do dragão, mesmo sabendo a importância das gemas para nós, então ela não é uma aliada confiável.

Eu não desejo que a Eliza e os seus, muitos amigos meus, morram. Mas assim como eu deixei muito para trás para me unir a Ordem do Dragão, a Elizabeth também é responsável pelas escolhas dela.

Mesmo assim, gostaria que tudo se resolvesse de uma forma que fosse bom para a Ordem do Dragão, para mim, e para ela.

--

Rainha 7, 14 4e

Diário,

Fui visitar a Lavínia hoje, e a igreja dela tem dois novos acólitos. Um Alarani e um Raksha se uniram a igreja dela e agora trajam as vestimentas azuis da deusa da Lua. Com isso, já somam dez novos acólitos, todos antigos devotos que esconderam-se do expurgo feito por Ekaria.

Ainda não consigo entender bem porque Ekaria foi tão cruel especificamente com a Igreja de Nayurai. Talvez para tentar recuperar a gema azul? Era, de fato, a mais acessível delas (mais ou menos), talvez por fúria contra o Sem Escamas? Há algo que acho que está faltando nisso tudo... talvez Lavínia consiga responder com o tempo.

Ela está meditando e escrevendo um novo evangelho de Nayurai, exprimindo o que sabe da vida dela e do sem escamas. Admiro ela por sua fé, mesmo vendo o que eu vi, mesmo tendo sua igreja literalmente devastada, ela continua a acreditar.
Perguntei a ela se não tinha medo que os novos acólitos pudessem ser cultistas querendo destruir esta recém formada igreja de Nayurai, mas ela não pareceu muito preocupada. Na verdade, entendi que ela não tem como distinguir um de outro, e não pode viver com o medo de que cada um que se apresentar a sua igreja possa ser um cultista.

Ela disso que ainda não sabe se irá manter o nome de “Igreja de Nayurai”, mas por enquanto ficará desta forma. Pelo menos Hamask é um porto seguro... Ela até encomendou um vitral para o local, que graças a doações diversas, está se tornando um lugar bastante bonito e até invejável para as outras igrejas do primeiro círculo.

Agora que ela está mais tranquila em relação ao que estamos fazendo. Pelo menos parece ter percebido que não temos muitas escolhas pela frente, e ela parece estar perfeitamente cômoda em deixar que outros (Urian ou eu) tomem a decisão ruim.

Não a culpo, ela tem coisas demais na cabeça dela agora mesmo. Espero que este tempo de marasmo tenha ajudado ela a entender o que está passando.





--

Rainha 9, 14 4e

Diário,

O Lucian teve um sonho, uma visão hoje. Estava na aula de heráldica quando fui chamada por um dos guardas do palacete, me dizendo que estava sendo requisitada.

Eu achei no começo que era o Patriarca a me chamar, mas não. Passamos reto para um quarto no andar inferior, onde Lucian parecia estar tendo algum tipo de visão. Seus olhos vidrados e seus músculos tensos denunciavam grande dor, e ele repetia “tragam a Erika, tragam a Erika”.

Tentei acalma-lo, mas não deu certo. Os médicos tinham tentado seda-lo, mas o meu amigo negava-se a ceder: precisava me contar algo. Nem os doutores nem a feiticeira Iliziarelli, que estava lá, sabiam o que fazer para acordar ele deste transe. Tentei falar com ele, me apresentar, mas ele só saiu desta estupefação com um tapa forte.

Ele acordou e posou os dedos sobre minha cabeça e me fez ver o que ele viu:

Eu vi uma figura decadente, um ser esverdeado, aberrante e apodrecido, como se construído de algum material vegetal em decomposição. Eu nunca o tinha visto, mas sabia quem era: o senhor das moscas. 



Eu vi uma serie de figuras entrando em um pântano ou atoleiro, um lugar húmido, lamacento e permeado de vida vegetal e insetos. Estas pessoas, um verdadeiro exercito, eu consegui reconhecer diversos: Tanasha, Diógenes, Cecil, Halmir, Tifon, Brianna e vários outros, e capitaneando-os, Elizabeth.

Havia mais figuras, algumas dezenas em cores diferentes, entrando neste pântano maldito e enfrentando uma horda de criaturas estranhas, plantas mutantes, animais deformados, insetos gigantes e monstruosos e animais deformados que avançavam voando, rastrejando ou caminhando em dezenas de patas horríveis.

Era os Estrelas Negras que eu via, avançando por este solo maldito do senhor das moscas, sendo enfrentado por um exército de horrores.

E lamentavelmente, sendo derrotados no caminho. A medida que avançavam mais e mais perto do senhor das moscas, menos deles tinha, mortos de forma violenta e terrível.

Vi Tanasha sendo quebrada como um galho. Diógenes morto, consumido pelas picadas de milhares de insetos. Vi Halmir sendo esmagado pelas mandíbulas de uma planta horrorosa e Tifon, ferido, vítima de um monstro aracnoide.

Mas eles não paravam. Apesar da perda, do desespero que era possível ver neles, Eliza não parava, e nem o faziam seus seguidores, que entraram dentro no pântano do senhor das moscas.

Eu conseguia ver, sentir o cheiro, e mesmo que eu quisesse virar os olhos, não conseguia: Era horrível demais, mas eu tinha que ver isso.

Por fim, Elizabeth chegara ao senhor das moscas, e mesmo fazendo jus a sua fama como uma das melhores espadachins de Alancia, não havia armas ou vontade mortal forte suficiente para derrotar o senhor das moscas.

Eu podia sentir o poder do Verde dentro dele, uma aura que saia dele poluída, que o protegia da morte e lhe dava poderes que nenhum mortal deveria, ou merecia, portar. Muito menos alguém tão maldito como ele.

Será que fora assim da primeira vez, quando Eliza e Cibele tentaram em vão derrubar o senhor das moscas? Esta dor e desespero, esta morte coberta de uma vida nauseabunda.

Os homens eram abatidos pela pura brutalidade das bestas do senhor das moscas, ou vítimas de mortes horríveis por magias tão cruéis que pouco consigo descrever, e que fizeram mesmo a necromancia de Brianna parecer mansa.

Ela tinha sido derrotada, o seu braço quebrado e suas forças abandonando seu corpo, enquanto o senhor das moscas crescia maldito por sobre ela, pronto para terminar o que começou faz quase dez anos atrás....

Então, eu vi uma chama azul o englobando, vinda de um dragão jovem, porém grande, que pairava a poucos metros dele. Eu vi as sombras de dracos e de cavaleiros e soube: a Ordem do Dragão tinha chegado.



Por um momento eu tive mais esperanças: O dragão soprou seu fogo azul por sobre o senhor das moscas, que pareceu sofrer o golpe da baforada draconiana energizada pela gema azul. Mas isto não era suficiente, a maestria sobre o Verde do senhor das moscas era maior que o poder do dragão tinha sobre a Azul, e o poder da gema que carregava superou a do dragão.

Mas logo, outro dragão desceu dos céus, desta vez soprando fogo negro, como o de Aurora Escarlate, e o poder combinado das cores superou o senhor das moscas. Alguns tolos, tanto da ordem do dragão quanto dos estrelas negras, tentaram cravar suas laminas no enfraquecido senhor das moscas, só para serem vaporizados pelo encontro da energia pura das cores.



Enquanto o senhor das moscas ardia, diversos paladinos e seus Drakes da ordem do dragão desceram do céu e começaram a matar e esmagar as bestas do senhor da moscas com eficiência e poder que lhes define. Todavia, as bestas eram terríveis, e alguns deles foram feridos ou mortos por insetos, plantas e animais monstruosos.

Eu vi diversas figura conhecidas, como a Paladina Andreia e o Arauto-Maior Ellithinen, que lutavam lado a lado dos poucas forças de Eliza que ainda viviam e estavam bem o suficiente para lutar.

O senhor das moscas não resistiu os sopros combinados, devastadores, e seu corpo fora devorado por esta chama azul e negra. Enquanto um espirito, uma figura vaporosa e verde escoava e voava para longe da destruição do seu corpo, a Gema Verde brilhava para fora da carcaça escurecida do que um dia foi o corpo do Senhor das Moscas.

A gema caiu no chão, aos pês de Elithinen, que olhou com um misto de desejo e dever cumprido a gema, mas sabia eu que ele não deveria, poderia ou queria toca-la. Então, dentre as sombras, aparece outra figura familiar...

Esguia e de uma enganosa aparência comum, apareceu a bruxa Celeste, desfilando entre os corpos mutilados de bestas e homens, até onde a gema verde estava. Ela era uma tocada pelo destino, e apesar de fazer sentido, me preocupei...

Fazia meses que não escutava nada da Celeste. Ela é uma figura enganadora: suas habilidades são vastas, e seu flerte com “coisas” antigas e profanas era algo que preocupava bastante Izack. Mas ela sempre se colocava nesta figura torpe e fácil de subestimar, que era tão fácil as vezes ignora-la e esquecer-se que ela era uma das figuras mais espertas e poderosas da cabala de Izack.

Tão oposto da Brianna como poderia ser: Enquanto a irmã de Eliza fazia tudo o possível para se mostrar poderosa e ameaçadora, e assim manter seus inimigos e inimizades acuadas, Celeste usava a técnica inversa: mostrava-se como uma boba da corte, mentirosa e fofoqueira, para desviar a atenção dela e parecer menos do que era.

Esta figura traiçoeira pegou a gema verde, que brilhou em suas mãos. O que diabos teria Urian prometido para ela para que aceitasse ajudar a Ordem do Dragão? E seria sábio confiar em alguém tão oportunista quanto ela?

Seja como for, Elizabeth e Elithien começaram a discutir alguma coisa que não consegui distinguir, nem pelos lábios nem pelo som, que escoava-se horrivelmente distorcido. Entendi, porém a última frase de Eliza: "Eu me rendo".

O qesir a olhou de cima para baixo, ela ajoelhada, mas não derrotada, e ele de pê, limpo. A olhou com aquela arrogância e soberba que só os qesires são capazes, e em um gesto, afastou-se enquanto ambos os dragões assopraram suas baforadas coloridas sobre Eliza!

Eu queria gritar. Eu acho que gritei. Senti o mundo dando voltas por um minuto. Como pode ser? Como...

Porque!

É difícil de escrever... sinto náuseas só de lembrar. Sinto bile subindo pela minha garganta

Porque?!

Ela tinha se rendido! Eles tinham vencido, tinham tudo o que queriam! A gema Verde era da ordem do dragão já!

Não contentes, a Ordem do Dragão voltou suas espadas contra os ainda chocados estrelas negras que sobraram. A luta que vi foi feroz e foi pessoal, a raiva nova dos estrelas se chocando com uma magoa reservada da Ordem do Dragão, que começaram a se despedaçar como inimigos pessoais.

Os estrelas negras foram ferozes e mataram diversos paladinos da Ordem do Dragão, inclusive a Paladina Andreia. Mas os estrelas negras, fracos como estavam, não eram suficientes para estes matadores de dragões, e em pouco tempo, todos estavam caindo.

Vi um paladino arrancar a cabeça de Cecil e lança-la na lama, como se ele não valesse nada. Como se ele não tivesse morrido e sangrado para salvar o mundo de Shottotug.

É dificil escrever...

Com os Estrelas vencidos, A Ordem do Dragão caminhou agora pelos territórios do senhor das moscas, matando as últimas criações deles, e em especial, rompendo diversos casulos que o monstros bruxo deixara para trás.

Para horror de muitos, dentro destes casulos haviam pessoas, homens, mulheres, diferentes idades. E seus estados eram dos mais variados. Alguns pareciam ter sua vida sugada para fora, como se suas energias tivessem sido usadas para energizar os monstros do senhor das moscas, deixando somente uma carcaça ressequida para trás, viva apenas pelo acaso.
Haviam pessoas horrivelmente deformadas, algumas pareciam estar em processo de transmutação para algum tipo de monstro como o que atacou os estrelas negras.

Outros, porém, estavam mutando para o que parecia ser corpos extra para o senhor das moscas. Homens e mulheres com o corpo esverdeado, e seus membros transformados como o do senhor das moscas...

A Ordem do Dragão foi rápida em tirar os piores de sua dor, mas ainda havia diversos outros prisioneiros, dentre eles muitas crianças, que ainda viviam e estavam bem. Ou "melhor", pelo menos. Estes foram retirados dos casulos e carregados para fora.

Então eu vi. Quando achava que a visão não poderia ter ficado pior, vi o Steven entre os paladinos. Mesmo anos depois, seu rosto, aquele sorriso pretencioso estampado como uma piada a grave situação que estavam, e a estoicidade da ordem do dragão. 



Este maldito feiticeiro traidor, que causou dor a tanta gente, que causou a morte da minha Mirani e de tantos outros. Este maldito oportunista que eu jurei que quando cruzasse comigo, iria quebrar cada osso do corpo dele, estava lá, com aqueles que deveriam ser meus aliados.

Mas não acabou por ai...

Em uma última visão compartilhada por Lucian, vi que um dos casulos fora aberto, e de lá um corpo que eu conhecia escorregou. Os cabelos ruivos e encaracolados lambuzados pela gosma verde clara do casulo, a pele branca e os olhos verdes: Cibele.

Só podia ser ela. Ou um corpo similar ao dela. Era ela, sem dúvidas, eu jamais me enganaria nisso. Ela, intacta, é retirada do casulo e levada, junto com os outros, por Steven, para além...



--

Rainha 9, 14 4e

Diário,

Não consegui continuar escrevendo. Devo completar o que escrevi agora pouco.

Estou chocada. Mais que isso. Estou horrorizada com o que vi. Minha cabeça da voltas, estou enjoada.

Não sei como saí daquele lugar. Só lembro do Lucian desmaiando, e logo estava no corredor gelado de pedra, sentada contra a parede e tentando respirar fundo. Lembro da vontade de vomitar, do sabor ácido do bile na garganta. Lembro de suar frio.

Como pode a ordem do dragão fazer algo assim? Eu sei que Eliza agiu contra os interesses de Urian. Eu sei que ela foi uma idiota e que não deveria ter ido lá sozinha, sem pedir a nos auxilio. Ela agiu por nossas costas, se aproveitou de conhecimento que não era seu e tentou obter alguma vantagem.

Mas ela não merecia isso. Ela não deveria ter morrido assim, ajoelhada, rendida e traída. Ela merecia mais. Muito mais.
E se eu estivesse lá? Eu poderia ter feito a diferença. Eu poderia ter impedido a ordem de Elithinen, colhido a gema verde eu mesmo. Poupado tanta dor e morte.

Como os deuses podem existir em um mundo que isso existe? Tantos rostos conhecidos e que eu amava ensanguentados. Eu nunca verei novamente Cecil, ou Tanasha, ou Van.

A Ordem do Dragão mostrou para mim sua verdadeira face. Urian o fez. Assassinos, criminosos desonrados que matam gente rendida, e que não tem medo de tirar a força qualquer um que estiver em seu caminho!

Eu sinto um enorme remorso por ter me juntado a eles. Não, remorso não por isso. Sinto enorme remorso por não ter agido de forma a evitar isto. Eu poderia ter forçado uma honra neste bando, em Urian, poderia ter estado com Eliza. Tantas coisas.

Agora já foi. Maldição!

O que Urian tem na cabeça em fazer tratos com gente como a Celeste e o Steven? O que ele pensa que está fazendo em dado gemas a dragões? Esse homem é insano, ou é tão frio que está disposto a fazer alianças com o mesmo Braham se isso lhe trouxesse alguma vantagem!

E o pior, ele, este homem frio e cruel, vai saber que o Lucian teve uma visão que “revelou” seu plano. E o Lucian, sabendo como ele é, irá confronta-lo, e vai morrer no ato, ou pior, será preso como um demente em algum lugar do castelo, só para ser usado no próximo passo do plano demente de Urian.

Eu não posso permitir isto! Não depois de que vi tanta gente que amava morrendo! Não posso perder mais gente, não posso deixar ele sofrer isto...

E ainda tem Cibele. Será que é a Cibele de verdade, presa desde aquela época pelo Senhor das Moscas, ou é uma cópia gerada pela gema verde?

O que eu faço agora? Não posso simplesmente fugir! Lucian, meus filhos e talvez a verdadeira Cibele precisam de mim. Eu não posso abandoná-los às mãos cruéis de Urian ou dos Alaranis. Eu não posso também tentar atrapalhar o plano do Urian. O que está em jogo é muito, mas muito maior do que eu, Eliza, Lucian.

O Patriarca vai saber do que aconteceu com o Lucian. Alguém irá falar com ele e ele me chamará para falar com ele. Tenho total certeza disso. Ainda tenho um tempo, preciso me acalmar e pensar bem...

Não posso tirar Lucian da cidade. Talvez Lindriel e Luna tivessem o poder para tira-lo antes que ele acorde e faça besteira, mas poderiam esconde-lo dos trigêmeos? E o Lucian, ele seria peça chave para o seguinte passo do plano de Urian? Se sim, ele precisa ficar e precisa colaborar.

Não tenho ninguém que possa confiar nesta cidade. Helgraf e Medeia são fieis a Urian, Lavínia já deixou claro que não está interessada nos assuntos internos meus ou da ordem do dragão, e Luna e Lindriel não são confiáveis, e certamente iriam se aproveitar do fato de eu ousar pedir ajuda a elas.

Não posso abandonar meus filhos também. Não posso coloca-los em risco.

Acalma-te Erika! Pensa friamente!

É muito difícil não pensar no que vi, no horror e na dor. Mas não está na hora de agir com o coração.

--

Rainha 9, 14 4e

Diário,

Assim como previ, o patriarca me chamou para conversar. Para um jantar, como as vezes o fazemos.

Enquanto comíamos, e enquanto falávamos de amenidades, coisas pequenas do dia a dia que sei que ele faz porque lhe falaram que isso me faria sentir mais confortável. Eu gosto do gesto, gosto do esforço que ele faz para tentar me deixar mais à vontade, e mesmo que estas pequenas coisas me sejam profundamente desinteressantes, eu converso alegremente.
Descobri que estou ficando bastante convincente nestas pequenas mentiras e pequenos teatros que fazemos um para o outro para deixar-nos satisfeitos.

Devo comentar que ele está ficando a cada semana mais humano. Um pouquinho mais a cada dia, um passo por vez mais distante da mente draconiana, fria e réptil que dominam seu corpo e seu coração.

Lembro de olhar profundamente para este homem. Traços firmes, porte altivo. Ele é um homem bonito, atraente. Mesmo seu jeito frio tem um charme, uma altivez que eu gosto.

É difícil dizer que no fundo desses olhos que vibram com vida e determinação tão humana há na verdade a mente de um dragão. E não de qualquer dragão. São as memórias de um pesadelo genocida que espalha terror e morte.

Mas Urian é tão diferente assim de Dragdar? O desejo dele é o mesmo: o manto do escolhido das cinco cores.

A comida é magnifica, como sempre, mas ele come com um desgosto mecânico e torna cada refeição com ele um mastigar constrangedor e até humilhante para nosso dedicado cozinheiro.

Quando terminamos a refeição, ele me informou que soube que estive na enfermaria. É claro que Urian sabia o que tinha se acontecido. Não o conteúdo da visão, mas sabia que Lucian tinha tido uma visão e eu tinha participado de uma maneira grande nela, talvez até mesmo compartilhado. Ele era muito inteligente para não notar estes pontos tão fáceis.

Eu falo para ele. Conto toda a verdade, da forma mais fria, mais sem emoção que consigo.

Devo confessar que, embora nas primeiras frases a neutralidade tenha sido quase derrotada por um fervor dentro de mim, uma vontade de gritar e ranger os dentes para este homem, muito mais rápido do que esperaria, uma frieza quase matemática tomou conta de minha fala e de mim.

Eu nunca fui de expressar minhas emoções. Durante um tempo, confesso, que fiquei a flor da pele, mas desde que casei com Urian, eu sinto que cada vez mais estou me tornando fria como ele. Aos poucos.

Coisas que antes me faziam exaltar agora encaro com dureza. Por mais desagradável que seja.

Confesso também que eu pensei que teria sido mais explosiva. Antes de chegar ao comedor e ver o Urian, tinha vontade de entrar com uma espada no lugar. Não, um machado, e destruir o local enquanto falava para ele a minha fúria.

Mas não. Sentem-me mais à vontade na frieza e objetividade. Algo que o Urian pareceu apreciar.

Depois da minha revelação, ele limitou-se a comentar quão fabulosa tinha sido a visão, e surpreender-se que os seus cavaleiros tinham tido sucesso.

Ele disse que tinha algumas coisas para falar, mas eu me adiantei, tinha que perguntar:

O primeiro, perguntei porque tinha Elithinen executado a Eliza e os estrelas negras, que tinham se rendido. Urian explica que os estrelas nos tinham nos traído antes, e que não eram confiáveis: Eliza sabia que precisávamos da gema e ao contrário de nos chamar, agiram por conta.

Ele confessou que esperava que Eliza tivesse entrado em contato e pedido ajuda, mas tristemente, para ele, não fora assim.

Acredito que urian conseguiu sentir um pouco da ira em meus olhos, e rapidamente complementou que não sabia porque o líder dos arautos tinha tomado aquela decisão, mas que ele confiava nele e achava que tinha um bom motivo.

Eu perguntei pra ele porque tinha chamado gente como o Steven para auxiliar à ordem do dragão, sabendo ele que eu detestava o homem pelos diversos crimes que tinha cometido na procura por poder pessoal. Urian desta vez não me deu o privilégio de uma desculpa: Steven tinha sido necessário para a ordem, e ainda o seria. E eu tinha que aceitar isso.

Eu disse que queria o homem enfrentando a justiça pelos seus crimes, mas Urian dispensou meu chamado por justiça, dizendo que os tratos que ele viria fazer com o Steven poderiam vir a serem superiores a qualquer clamor por justiça que eu poderia fazer. Ele era necessário.

Eu critiquei o tipo de aliados que ele se fazia, e principalmente, o tipo de escolhas que ele tinha feito. Urian foi seco e disse que haveria tempo para arrependermos e reparar nossos erros depois. Eu confrontei que havia coisas que não poderiam ser reparadas depois, e ele limitou-se a dizer que estas coisas seriam lamentadas, mas que eram necessárias.

Eu entendo a posição dele. Entendo a necessidade absoluta que temos para cumprir o plano. E me surpreendeu me ver concordando com ele, do mesmo jeito frio e mecânico que ele fala as coisas.

Mas eu sinto isto. Também sinto isto. Urian tem razão, e não está na hora de jugar o mundo por nossas morais. Não posso colocar uma noção pessoal de honra e moral por sobre a existência de centenas, senão milhares de pessoas. Isto está claro para mim, e eu concordo com ele.

Eu falo para ele que entendia agora porque ele não tinha me mandado a colher a gema verde. Ele se exaltou. Repetiu que a razão era que eu estava fora da cidade naquele momento, e que não tinha mentido para mim.

Eu sei disso. Mas algo em mim gostou muito de vê-lo se exaltando, quebrando a fachada inumana e fria dele, sentindo o sentimento e a emoção aflorar neste homem normalmente tão frio. Eu só sorri.

Disse a ele que era difícil confiar no que ele me dizia, não porque ele mentisse, senão porque ele tinha tantas coisas que escondia que era difícil acreditar que o que ele falava era a verdade completa ou somente uma parte que me faria sentir melhor. Disse a ele que meias verdades também eram mentiras.

Ele, mais friamente, me explica que não me conta tudo para proteger o plano e mim: Existem diversos feiticeiros e bruxos por ai, como a Brianna, que poderiam colher os segredos que possuo de minha mente viva ou morta.

Me contar coisas que eu não deveria saber colocaria em risco todo o plano.

Ele sabe que esta resposta não me satisfez. Eu digo pra ele que não queria ser deixada aparte das coisas. Que eu sabia que se não tivesse tido a visão compartilhada com o Lucian, ele provavelmente teria escondido a morte da Eliza por meses, até que não fizesse mais diferença. Eu queria evitar estas meias verdades e segredos.

Ele diz que ninguém na ordem do dragão sabia tudo, e que por exemplo o mestre em armas Pranar também não sabia da viagem dos paladinos. Novamente, me irei e ele notou. Eu não sou o mestre Pranar, sou a maldita matriarca desta ordem e deveria saber o que se passa com ela!

Ele diz que havia coisas que ele não poderia me dizer ainda, pois ainda havia muitos riscos que eu devia correr e não podia permitir que as informações que eu eventualmente possuísse fossem retiradas de mim. Mas comprometeu-se a ser mais aberto. Pelo menos isto.

Finalmente, tocamos no caso do Lucian. Eu perguntei a ele se o Lucian seria ainda necessário para os planos da Ordem, e Urian disse que sim, e preocupou-se de que as visões de Lucian talvez lhe causasse problemas, como foi agora.

Eu me comprometi a manter o Lucian sobre controle, pois sabia eu tanto quanto Urian que o sangue quente do filho de Sigfried faria ele tirar satisfação do meu marido. Lucian seria preso, derrotado e possivelmente enviado a um calabouço até ser necessário.

Eu me comprometi a controlá-lo até que ele seja necessário pela última vez. Dei minha palavra.

Encerrado este assunto, Urian adiantou duas coisas: primeiro que agora que estava com todas as gemas, devia me preparar para tempos difíceis. Era a calmaria antes da tempestade. Eu coloquei a ele que provavelmente Hamask inteira seria um campo de batalhas contra os inimigos da ordem do dragão, em especial Ekaria. E perguntei se ele estaria disposto a ver a cidade queimar, e para minha surpresa recebi um triste não.

A segunda coisa, ele me falou sobre a Cibele e que ele suspeitava que talvez fosse a verdadeira Cibele, o que corroborava com a teoria de que aquela Cibele sombria seria na verdade um espectro assumindo a forma da minha amiga.

Mas para saber sobre isso, teríamos que conversar com a Cibele resgatada e ele queria que eu fosse a primeira a falar com ela: eu certamente saberia se é a verdadeira Cibele ou um humunculo desmemoriado.

Eu concordei.

Não sei se torço para que seja minha amiga ou não. Amaria que fosse a Cibele de verdade, resgatada para vida após um longo lapso presa por um poder maior. Mas por outro lado, ela acordar para ver um mundo neste estado, deve ser algo cruel e triste.


This entry was posted on quarta-feira, abril 20, 2016 at 10:59 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

2 comentários

Muito bom, e e começam os preparativos para o grande final...

21 de abril de 2016 08:17
Anônimo  

Posta mais sobre o cenário de Alancia, você escreve muito cara.

21 de abril de 2016 12:19

Postar um comentário