BL - Diário de Xeloksar 07  

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Sessão 7

Trecho do Diário de Aventuras e Desventuras de Mestre Xeloksar o Explorador, Uma Autobiografia, Vol. 9 - A Cabala Renascente, capítulo 2 - Novas Desventuras em Khain

...)Fomos levados até uma desacordada Sodra que visivelmente não quis cooperar. Amarrada à uma cadeira, com o rosto inchado por alguns golpes. Isso é suficiente para ver a metodologia de negócios de Grustil1.
Ele não conseguirá muitas informações.

Luna e eu nos posicionamos para uma conversa, tentar fazê-la compreender a situação seria o melhor caminho para a cooperação. Não muito perto, claro. Mesmo sendo uma akiak urbana já vi dóceis animais se tornarem selvagens feras quando acuados.
Infelizmente Grustil intervinha com sua "delicadeza Orokul"2.
Não tivemos muitas informações, ela entregava para um homem em Khain, um desconhecido. A próxima entrega realizar-se-á em dois dias.

Grustil não confia em nós, não até o presente momento.
Neste ramo, não confiar é a melhor opção.
Ele e Luna se surpreendem quando digo que não faço parte da Máfia, sou um intermediário, sim.
Um intermediário envolto até o pescoço - literalmente - nesse antro.
"Favor"? Ora, peça-me para catalogar espécies, investigar ruínas, estudar civilizações... quem sabe até consigo uma doação da Ordem. Agora, intervir como garoto de recados?
Dai-me sabedoria, Cassep.

Retornamos à Saída do Bardo para nos equiparmos. Precisaremos investigar o entorno da cidade em busca do carregamento, Sodra disse 2 dias, eles não devem estar longe.
Volkzar recusa a ajudar-nos. Sendo ele um vigilante, o que faço é justamente o que ele combate. Garoto, gostaria que fosse tão fácil3.
Annika já é mais solícita, mas preocupa-me o estado em que seu Pulmão de Ferro4 se encontra. Aliado ao seu braço quebrado sua condição se torna ainda mais delicada.
Não nos restou opção além da graciosa Lindriel. Confesso que em um primeiro momento ela não me pareceu muito adequada à tal jornada, mas, jamais subestime o conhecimento adquirido ao longos dos anos, e isso, Lindriel tem de sobra.

Gostaria de ter encontrado Erika e Gaborn no Bardo, ao menos para a refeiç... ahn sim, às vezes me esqueço que ela recusa o requinte e ele acha que tudo tem gosto de urina e vômito.
Espero que estejam aproveitando um tempo melhor que o nosso.
Gaborn Gaborn, primeiro uma tentativa de dança com Lady Erika, agora um convite para compartilharem de um mesmo quarto...
Quem diria que por detrás desse jeito ranzinza há um galanteador? Se minha cabeça não estivesse tão enfurnada nesta tarefa adoraria saber o resultado de sua empreitada. Respeito.

Uma vez que não temos um destino certo, achei melhor buscarmos montarias.
Luna arcou com elas, já que meus recursos encontram-se escassos.
Maldito guarda. Tomara que tenha se engasgado com suas putas.

Através de algumas pistas, marcas, investigações em locais próprios para esconder-se, chegamos à uma clareira.
A carroça aberta, corpos ao chão. Sem vida.
Luna decide investigar o que houve, forneço-lhe minha lanterna, quando Lindriel providencia pequenas chamas que borboleteiam o domo.
Até em suas evocações mantém a graça e o glamour. Ora, estética não é a minha especialidade5, couro sim, deixei que Anifirith cuidasse disso.
Lindriel parece não gostar do comentário, questionando sobre tratar tal escola como um machado ao invés de um florete.

Todos os quatro akiaks tiveram suas gargantas cortadas enquanto dormiam. Com mil demônios, não sabem ficar de guarda6?
Pelos passos leves foi um Alarani. Levou a carga, soltou o cavalo, retornou à cidade. Era só o que me faltava, um terceiro (ou quarto?) grupo...
Luna retira os pertences dos akiaks, quem sabe possa ajudar a ter um entrosamento com Sodra.
Queimo a lã da carroça com um morcego flamejante7, não antes sem dar um sorriso à Lindriel, que do alto de sua ferradura diz para fazê-lo sem suar frio... hah, essa qesir tem culhões!

No dia seguinte retornamos à um Grustil, todo manchado, limpando um cutelo tão ensaguentado quanto o próprio, enquanto diz que Sodra está morta.
Já penso no pior, ele não pareceu gostar da constatação, disse que não são assassinos, que é um açougueiro.
Por todos os tesouros do Castelo de Filarwyn Cevenberethion8! Que parte de não são assassinos eu perdi?
Grustil diz que antes de morrer ela havia informado que entregava para Jacopono Ricci, o atravessador do Conde.
Lá se foi todo o plano de trazê-la para o nosso lado. Matamos sem querer, não resistiu ao ferimentos. Com mil demônios, pelo menos Erika não está aqui.
Não queria envolver a Cabala nisso.

Luna reconhece a figura, um Arcanamach9 que fora exilado de Elhedond. As informações começam a se encaixar, já que Elhedond era uma das paradas da mana que vai até o Conde.
Buscamos Jacopono no Vigia, estabelecimento da nobreza khainiana, onde realizam O Jogo, um nome para a prática dos nobres de jogar com vidas alheias. Hamask ou Khain, a nobreza e seus hábitos são os mesmos10.
O verme é protegido pela família Manzoni e sabe muito bem como tirar proveito disso, Luna consegue extrair que ele fora o responsável pela morte dos Akiaks, eu... consigo um talvez.
Talvez ele volte a fornecer para o Conde, se não conseguir nada melhor. Seu rosto brilhava de exultação, ele sabia que estava em uma posição privilegiada, e eu, um simples zé ruela11 mendigando por esmolas.

Já sabíamos que os Purificadores12 tinham interesse na carga, a escola de Misticismo - especialidade do grupo - tem um alto consumo de Mana, produto rigidamente controlado pela Escola Real de Arcanismo. O tráfico é um meio rápido para atingir seus rituais, rápido mas custoso, e pelo visto eles estão dispostos a pagar qualquer quantia.
Luna menciona uma de suas agentes posicionada em Khain, Bianca, que fornece novas informações.
Aparentemente os Purificadores são ex-membros da Theumanexus13 e possuem uma rivalidade com os Renascentes14, uma fraternidade da Escola Real.
A gentil donzela, cuja memória me faz recordá-la dos tempos do Rosa, diz poder providenciar um encontro com o grupo.

Seguidos a tal encontro, acompanhados de Lindriel e Bianca.
O grupo de arcanistas surge, a dianteira é tomada por uma altiva qesir, com um porte gracioso mas de feições duras.
Sua feição demonstra um leve descontentamento ao me ver enquanto caminha em minha direção.
Subitamente ela desvia e caminha em direção à Lindriel, a qual eu vejo se elevar, como felinos quando iniciam uma disputa.
Mas o que ocorre é completamente fora do que eu havia esperado.

Ambas iniciam um discurso de reencontro no idioma Silari, onde a feiticeira Laeneth presta honras à Lady Anatrel Seleania, que aparentemente é Lindriel.
Bianca e eu ficamos pasmos com o que segue depois.
É como se uma fera ômega encontrasse seu alfa após estações afastado, não posso descrever de outra maneira pois Lindriel, através de uma calma, mas incisiva fala, providencia que sua amiga forneça os convites para a festa, bem como auxilie na empreitada para frustrar os planos dos Purificadores. E tudo acaba como se uma chuva de pétalas houvesse gentilmente descido sobre as qesires, que pedem licença para colocarem seus assuntos em dia.
Bianca diz que Laeneth15 é uma das maiores "chuta-bundas" de Khain, e fica tão surpresa quanto eu com o resultado causado por Lindriel.
Dizem que a experiência vem com o passar do tempo, tal ditado justificaria a presença exercida pela bela Lindriel, claro que não seria descortês de perguntar-lhe a idade, mas foi uma cena digna de causar fascínio pelos feitos que levaram à tal resultado.
Talvez Gaborn não estivesse tão errado em duvidar de nossa bela qesir, de fato, ela é muito mais do que aparenta16 (...)


Notas do Editor
1 - Nota-se que a essa época o Voltier ainda não era uma das muitas especialidades de mestre Xeloksar. Eventualmente ele aprenderia que o nome escrevia-se Gruustil, em fonética típica do Voltier.
2 - Veja Vol. 6 - As Ruínas de Tlabaaxsu, cap 13 - Bandidos de Estrada, de novo...
3 - Veja Vol. 3 - O Grande Explorador, cap 2 - Financiamento.
4 - A época mestre Xeloksar conhecia pouco sobre a condição, onde o acúmulo de fumos e poeira metálica nos pulmões ao longo dos anos provoca sequelas graves. Mais comum em grandes fundições e metalúrgicas, como as dos Dakhani.
5 - Veja Vol. 6 - As Ruínas de Tlabaaxsu, cap 8 - Na Terra das Fadas.
6 - Veja Vol. 5 - As Montanhas de Xeloksia, cap 9 - Emboscado por Pigmeus.
7 - Veja Vol. 2 - O Jovem Herói, cap 17 - Os Senhores Flamejantes de Agnithia e também Vol. 6 - As Ruínas de Tlabaaxsu, cap 16 - “Eu sou Fogo, eu sou Morte”, que bom para você: Eu sou Inflamável...
8 - Veja Vol. 7 - A Era das Trevas, cap 10 - Romance nas Ruínas.
9 - Força de paz e polícia investigativa de Elhedond, os Arcanamach que encabeçam e comandam a guarda da cidade-estado.
10 - Veja Vol. 6 - As Ruínas de Tlabaaxsu, cap 2 - Hamask.
11 - Expressão pejorativa usada para descrever uma pessoa de origem simples, principalmente, mas não necessariamente, tendo vindo das ruas. "Ruela" em Thenal é uma rua pequena, beco ou outro corredor urbano secundário; "Zé Ruela" parece se referir a alguém simples, um morador dessas ruas.
12 - Cabala composta por feiticeiros formados pelos mestres de Theumanexus e outros interessados Khainianos, um clube dedicado ao avanço e divisão de conhecimento de Misticismo.
13 - Escola de menor prestígio Khainiana; não realmente uma "academia", segue sim o modelo típico em Irritarria e Thalase de poucos estudantes muito ligados a um mestre, ao invés de vários mestres e vários tópicos.
14 - Cabala de professores, alunos e ex-alunos afiliados com a Escola Real de Arcanismo e Hermetismo. Como a maioria das irmandades possui um pequeno salão próprio na Academia.
15 - Laeneth Eldetralle é a figura mais visível da cúpula dos Renascentes; não se sabe se ela faz parte da cúpula ou apenas segue suas ordens. Mestre Xeloksar sabia bem que a fada era envolvida com algumas atividades criminosas discretas, sempre vestida em roupas de aluna da Academia e com o codinome de Professora.
16 - Veja Vol. 4 - O Norte Selvagem, cap 2 - A Dama Branca de Irritarria.

***

Trecho dos livro de oração de Luna, sacerdotisa da Mãe Negra

“Mãe negra, mãe negra, obrigada por me abençoar
Não me permita de seu caminho desviar
Mãe negra, mãe negra, que guia meu andar
Não me permita cair, tropeçar ou fraquejar”

Há momentos em que me sinto uma leoa caminhando em meio a hienas doentes, parece-me que sou a única a ter algum instinto ou pensamento, ao invés de sorrir débil e amargamente. Como Xelos chegou tão longe? Como em nome dos deuses não fora morto ainda?

Até onde me fora dito, a cabala tinha membros de destaque ou importância em suas áreas de domínio, então como em nome da Insaciável, um traficante de Hamask, levantado por uma das famílias da máfia, se intera tão pouco desse mundo cruel que é seu mundo, um mundo cruel e feio que irá engoli-lo se Xelos não for um pouco mais esperto.

Celeste costumava dizer que Khain é um baile de máscaras, hoje a tarde fomos comprar máscaras para encontrar Ricci, Xelos queria uma feia, áspera, escura e sombria, eu tentei induzi-lo a comprar algo que não revelasse descaradamente sua natureza Thaar. Tentei dize-lo que mascaras servem para ocultar quem somos e dar uma ideia daquilo que podemos ser mas não somos. Como por exemplo um homem-rato.

Achei que ele queria uma máscara do que era, ledo engano, Xelos claramente não é áspero, sombrio e feio. É bobo, calmo, ganancioso e burro – ou se não o é finge muito bem. Devia te-lo deixado pegar a máscara feia, vai ver é tudo que ele deseja realmente ser, aquilo que almeja... mas esse fato já passou.

Será que Dorana perdoará meus pensamentos conflitantes? A culpa me esmaga e meu coração se divide, mas será mesmo que tudo que fiz comigo é real, ou uma triste imagem distorcida por espelhos e fumaça?

Quando a vingança da Imperdoavel virá?

“Mãe negra, mãe negra, obrigada por me abençoar
Não me permita de seu caminho desviar
Mãe negra, mãe negra, que guia meu andar
Não me permita cair, tropeçar ou fraquejar”

This entry was posted on sexta-feira, agosto 28, 2015 at 22:33 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

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