BL - Diário de Erika 25  

Posted by Diego Erik in



Sessão 25


Cavaleiro ??, 12 4e



Diário,

Este é um dos locais mais escuros e silenciosos que já estive. O som da pena sobre o papel parece com o de uma avalanche, ecoando por todo o local em rasgos e grunhidos.

A respiração parece pesada aqui, e certamente o deveria ser, pois estamos em um local onde o véu é muito fino, mas por nossa sorte, este local está a tanto tempo abandonado que os espíritos mais interessados no mundo físico já não o frequentam. Somente sombras imateriais se movendo pelos cantos da luz, revivendo momentos antigos dos moradores deste lugar perdido no tempo.

A luz esforça-se para sair da lamparina, e ela parece opaca aos olhos, o amarelo das velas e do óleo queimante é mais marrom do que branco. O calor ainda está lá, mas a luz parece ser sugada para outro lugar. Para o véu.

Em lugares de véu fino como este, a luz que portamos é tragada pelo mesmo efeito que despeja a escuridão do “outro lado” sobre nos. Talvez os espíritos mais curiosos vejam esta nossa luz tragada com a mesma indignação com que nós percebemos as sombras sobrenaturais escoando pelos cantos dos olhos.

Os sonhos que tenho aqui são perturbadores. Não os que acostumava, mas com figuras encapuzadas e enegrecidas em um local tão aberrante que não deveria existir em qualquer outro lugar senão no abominável mundo dos pesadelos. É menos violento, menos chocante que os sonos infestados de dragões que costumo ter e que nos últimos meses tinham se tornado de vociferações a suspiros em meu sonhos. Mas ainda igualmente temíveis.

Este local é uma antiga necrópole quesir chamada de Alangaros. Lindriel explica que muito tempo atrás, um algo rei-feiticeiro dos quesires, chamado de Nelrilamil, construiu este complexo para seu consorte Pelarion Larenfhar, que era um necromante de não pouco poder. Aqui, em suas galerias, os corpos de heróis antigos dos povos “cuidados” eram preservados nas eras com ajuda de magia antiga e talvez agora já esquecida.

Graças as proteções lançadas, os corpos destes heróis e nobres não eram possuídos, mas o mesmo não poderia ser dito dos corpos de possíveis saqueadores que, eras depois, invadiram o lugar atrás de tesouros ou conhecimento.

Me pergunto quem são os heróis de outras eras que descansam aqui. Quais serão seus feitos, suas glorias e dores. Será que são como Savith e Aveshai, pessoas que moldaram o mundo ao seu redor somente para serem esquecidos nas eras?
A viagem que passamos para chegar aqui foi rápida, mas terrível. A feiticeira Illiziarelli e, indiretamente, a própria Senhora do Fogo, localizaram e reativaram por última vez este portal, que dizem estar perto das terras de Sylkranias. O portal que passamos tinha muita pouca energia, e ao forçar sua ativação pela força da magia de sangue, foi criado um caminho só de ida.

Ao cruzarmos o portal, e pouco depois, ele implodiu, lançando escombros do requintado quadro élfico pelo lugar e inutilizando-o, talvez para sempre.

Para todos os que não tínhamos sangue qesir em nossas veias, a viagem foi um açoite: saímos do portal enjoados e esgotados, com nossas energias sendo drenadas de nós como por causa de uma grave doença. O local, escuro e gelado, não auxiliou nossos ânimos, e desde então todos preferimos ficar calados.

Desde lá, estamos aqui neste lugar frio e sem vento. Lindriel, Lavinea e Mirani tem saído frequentemente para explorar as sombras além, uma vez que não precisam da luz como nos para viajar e graças a suas ligações com as fadas, não padeceram do mesmo suplicio que nos.

Além de mim, estão sera Medeia, ser Helgraf, Luna e Salamandra. A Luna, por ter uma saúde já normalmente fragilizada, sofreu ainda mais com a passagem e parece realmente esgotada, mas não há nada que possamos fazer em relação a isso. Não aqui pelo menos.

Salamandra está um pouco mais afastado, quieto e estoico como sempre. Ele parece menos afetado que nos, mas é só uma aparência. Já tive o prazer de conhecer outros monges antes, e eles não são facilmente abalados. Mesmo passando fome e frio, parecem estar sempre em seu melhor, jamais se deixando estremecer pelo mal estar.

Ser Helgraf está com suas contas em suas mãos desde que entrou neste lugar, rezando pelo criador em procura de proteção, sabedoria e determinação. É um homem de fé, de fato, mas pessoalmente acredito que estamos em um lugar que nem mesmo o Criador lembraria de olhar.

Sera Medea está perto de mim. Esta Cavaleira do Corno é tão admirável quanto atenciosa, apesar do inexorável trejeito militar que cavaleiros possuem. Ela, mesmo parecendo jovem e possuindo uma aparência bonita, é uma experiente cavaleira, destaca entre mesmo os Cavaleiros do Corno. Ela entendeu, assim como outros cavaleiros do corno, que seu dever era com Hamask e não para com a política da cidade. Assim, quando Xeloksar assumiu o reinado, ela e outros decidiram ficar na cidade e servir seu governante, sendo logo destacada para ser minha guarda costas, por ser a melhor nisto.

Lindriel parece mais branda, menos agressiva neste local. Talvez seja graças aos eventos que passamos nas últimas semanas, mas ela parece menos disposta a iniciar animosidades comigo. Mas talvez seja porque ela “sente” nosso desconforto, e esteja preocupada com Luna.

A Lavínia parece estar tão incomodada com este local quanto nos, e tem assumido uma posição mais vigilante, talvez preocupada por aquilo que as sombras escondem. Ela não possui a familiaridade de Mirani ou Lindriel com questões qesires, e o local inteiro claramente a incomoda. Ela vem de Kerra e certamente o frio e o silencio deste lugar a incomoda. Na floresta, além do calor, o som é sempre constante, mesmo de noite ou nas cidades. O som de pássaros e animais, do vento e das folhas e das aguas está sempre constante.

Eu tive a oportunidade de estar em uma necrópole em Kerra, e aqueles lugares são amaldiçoados. Sei que ela se lembra disso ao estar aqui e a preocupa. Eu deveria também estar preocupada, ao final, daquela vez eu tinha dezenas de dakhanis a meu lado, e agora somente um punhado de gente.

Finalmente, Mirani é a mais estranha deste lugar. O local e os ânimos não parecem a afetar. Ela transita livremente entre um lado do véu e outro, de forma tão natural que mesmo o local não parece lhe afetar em nada. Ela fica imaterial, nos observando do outro lado do véu, ou as vezes assumindo a forma de um pequeno gato amarelo.

Ela é, para todos os propósitos, a Mirani que conheci, e me traz lembranças daquele tempo, daquelas pessoas que faz mais de uma década eu convivi. Me faz perguntar o quão longe chegamos, e se os caminhos que escolhi foram corretos. Não interessa, eu acho. Voltar no tempo, corrigir o passado, é algo reservado para somente alguns poucos corajosos e sortudos de poder compreender como o tempo flui, e de possuírem a gema azul, pelo que entendo.

Em todo caso, preocupamos a presença de mortos andantes, ou pior, de corrompidos. Em todo caso, não escutamos nada, e o eco do lugar delataria qualquer um que se aproximasse fisicamente. O silencio é nosso aliado.  

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Cavaleiro ??, 12 4e

Diário,

As ruinas de Alangaros se provaram ser muito mais letais e terríveis do que imaginamos.

No começo deste dia – chamo de dia porque não faço ideia que horas são, então contarei desde que acordei – enquanto Lindriel, Lavínia e Mirani saíram para explorar mais o local, e tentar achar um caminho que possamos seguir para a superfície, o Salamandra percebeu algo.

Estávamos todos acordados e comendo aquela gororoba adocicada que a feiticeira alarani nos dera e que nos “faria sentir melhores”, o Salamandra nos informa que conseguira sentir uma brisa no local. Não saberia dizer de onde, mas era ar diferente do que este estagnado.

Quando Lindriel voltou, comunicamos isto e a ela. Ela comentou que embora uma corrente como essa seja tênue demais para mortais ou qesires seguirem, um Silfo seria capaz de correr por ela.

Um Silfo é uma fada de ar, não muito mais que um espirito Elemental dado forma, que Lindriel poderia conjurar e controlar para nos auxiliar.

Assim, o Salamandra nos pediu para ficarmos quietos e concentrou-se durante um tempo. Logo, ele se levantou subitamente e nos levou até um local onde as correntes de ar eram mais fortes. Eu não senti nada, e certamente nenhum além dele sentiram, mas ele não parece ser um homem que brinca então acreditamos.

Neste lugar, Lindriel chamou o Silfo e a criatura, materializada em uma figura fantasmagórica de ar, vapor e sombras, nos guiou pelos caminhos do local enegrecido, sob o prestigio da luz que Lindirel encantara em uma garrafa de agua, que de alguma forma brilhava mais forte que a luz natural.

Em Alancia nem um mero Silfo é uma coisa legal...


Guiados pelo espirito elemental, seguimos pelas galerias altas e imponentes do local. Não foi difícil imaginar como ele era antes, iluminado por luz do sol artificial e repleto de plantas e estudantes de magia. O local é uma verdadeira cidade disposta na vertical, com passagens, corredores, entradas e galpões por todos os lados.

Sem o Silfo seria fácil nos perder, ou gastar muito tempo em caminhos sem saída. Muitas vezes Mirani teve que nos ajudar a corrigir o caminho do Silfo, e Helgraf nos auxiliar a entender para onde estávamos indo, graças a seus amplos conhecimentos na gramatica e arquitetura Urdur

A infraestrutura da inconfundível arquitetura qesir e do estio clássico Urdur (conforme nos explica Helgraf) estava envelhecida e rachada. O tempo não tinha sido gentil sequer com esta enorme construção e o local estava repleto de falhas, áreas desabadas e lugares abalados.

Parecia que caminhávamos na escurecida carcaça de um monstro a muito tempo morto.

 A corda e gancho que Helgraf tão sabiamente trouxe nos ajudou a cortar caminho e evitar lugares mais perigosos. Da mesma forma que a aguçada intuição de Lavínia nos salvou em pelo menos um par de ocasiões de seremos soterrados pelos corredores decaídos.

Em uma das ocasiões, Lavínia nos avisou segundos antes que o teto do corredor desabasse, e se não fosse pelas incríveis habilidades do Salamandra, Luna teria sido soterrada em toneladas de escombros.

Eu não consigo entender o psiquismo. Aliás, acredito que ninguém aqui, nem mesmo Lindriel, entende. Uma vez me explicaram que ele era como magia, mas diferente, porque não se tratava de abrir um rasgo no véu para dar forma as sombras sobrenaturais do “outro lado”. Era um tipo de magia puramente do “nosso lado”, em que a mente era imposta sobre as matéria e as leis que mantinham o mundo estático como ele é eram torcidas pela pura força de vontade mortal. Ou algo assim.

Me disseram também que somente os mortais são capazes de usar psiquismo, sendo inalcançável por qesires e espíritos. E que dentre os mortais, os humanos e os urdur tinham mais capacidade que outras raças.

Enfim, continuando nossa viagem.

A medida que avançávamos, começamos a encontrar corpos de antigos exploradores ou invasores, que rapidamente se levantaram para nos atacar, possuídos por enlouquecidos espíritos presos ao material.

Dotados de grande número, e por sermos pessoas mais experientes, não tivemos muitos problemas em enfrentar estes espíritos presos. Eu posso exorciza-los do corpo material, mas isso não é necessário muitas vezes.

Ao contrário do que diversas literaturas pregam, os corpos possuídos ainda precisam de músculos, tendões e ossos íntegros para se locomover e atacar. Não existem esqueletos que se movem por ai, pois eles não tem os meios para isso. Os mortos andantes são sempre dotados de músculos, que mesmo ressequidos, ainda possuem energia e força para mover-se.

O espirito não pode abandonar o corpo possuído enquanto ele existir ou se for forçado a isso, mas com ossos quebrados e músculos dilacerados, o espirito não consegue fazer muito para continua a se mover.

O silfo nos guiou até uma passagem cavernosa, por onde o vento vinha. Parecia ser a passagem de uma antiga estrada urdur que comunicava até a necrópole. Sabíamos que este lugar era perigoso, porque os corrompidos utilizam-se das antigas estradas subterrâneas urdur para se locomover. Se haveria um lugar em nosso caminho que haveria corrompidos, seria este.

Procuramos nos proteger, cobrir rostos, olhos e pele para evitar o contato com o tóxico sangue destas criaturas. A corrupção é letal, e poucos são os que sobrevivem, como Helgraf pode afirmar.

E assim era.

A medida que avançávamos, o Salamandra nos auxiliou a evitar os lugares em que a corrupção era mais perceptível, mesmo que fossem aqueles que o silfo nos indicava. Mas os esforços foram em vão.
  
Em uma passagem mais aberta, topamos com um grupo grande de devoradores. Suas bocas cheias de dentes e seus pelos esbranquiçados aparecendo como formas fantasmas entre as sombras, aparentemente não nos esperando.

Por sorte, Helgraf estava preparado e entregou a Lavínia, que enxergava as criaturas bem, uma bomba de luz. A granada explodiu em um baque surdo e um poderoso flash de luz alquímica que cegou as criaturas a nossa volta.



A luz queimou os corrompidos, que rosnaram agudo e chamaram a atenção dos demais. Ao perceber o grande número de devoradores, e pior, ao vermos o daibo que os comandava, percebemos que tínhamos que fugir.

O silfo nos guiou entre as passagens cavernosas na máxima velocidade que conseguíamos sem nos separar. Passagens algumas vezes lapidadas pelas mãos de urdur, outras desenhadas de forma irregular pela caverna.

Mesmo com certa vantagem, os devoradores eram mais rápidos que nos, e tivemos que parar e fazer algo para atrasa-los. Melhor, o Salamandra teve que fazê-lo. Ele concentrou seus poderes psíquicos sobre as rochas de uma passagem e as fez desabar, deixando só poucos espaços para os devoradores nos perseguirem.

Todavia, ele teve que parar e foi atacado pelos devoradores. Eu, Helgraf e Medeia partimos para defende-lo, ao final estávamos os três bem amadurados. Mesmo derrotando a maioria na frente com ajuda da Lindriel, um deles conseguiu pular por nós e atacar o Salamandra, que com ajuda da Lavínia conseguiu mata-lo sem sofrer nenhum ferimento.

Apesar de ganhar tempo, sabíamos que os corrompidos seguiram nos perseguindo e continuamos a fugir por entre as galerias rochosas, até sermos emboscados por outros corrompidos, mais devoradores que se moviam de forma feral pela caverna. Eles estavam acompanhados desta vez por uma figura medonha, um aberrante estava entre eles.

Só o vi de relance, o suficiente para notar um corpo deformado com vários braços e laminas que movia-se no escuro.

Não vou tentar descrever a coisa, a mera lembrança dela me desagrada e não possuo a eloquência necessária para descrever tal horror.

Eu sei que os outros viram, e espero que estejam bem. Mesmo entre os soldados mais experientes e os magos mais determinados, a mera visão destes monstros costuma abalar o espirito e marcar a mente e os sonhos por meses, senão anos.

Poucos são aqueles que dedicam-se a procurar e caçar estes monstros, e pode-se dizer que são insanos também. Uma vez encontrei um destes caçadores que tornou-se no final da vida um cultista de exatamente os monstros que ele procurava caçar. Talvez este seja o destino de muitos.

Desviamos destas criaturas e nos deparamos com outro corrompido nos esperando em um espaço aberto: um ogro, com seus vários homens de altura e sua força descomunal, o monstro insano e idiota arrancou uma estalactite e arremessou contra nós, bloqueando o caminho daqueles que nos perseguiam. Passamos por ele rapidamente e encontramos outra abertura que nos levou de volta ao complexo élfico. O monstro não conseguiu nos seguir, devido a seu tamanho, mesmo que tenha insistido muito para isso.



Corremos por mais vários minutos até que Luna caiu de cansaço. Estávamos longe, novamente dentro da necrópole, acreditávamos, e o silencio nos confirmava que nenhuma criatura conseguira nos seguir.

Depois de descansar um pouco avançamos por entre o complexo até que fomos atraídos pelo eco de batidas de picaretas abafadas. Seguimos o som até o que parecia ser uma parede lisa, de onde o golpe metálicos das ferramentas nas pedras eram acompanhadas pelo som de vozes humanoides, que mesmo abafadas, eram altas e claras perante o silencio do local.
Salamandra não teve dificuldade em identificar os sons: Urdurs e humanos escavando a caverna, comandados por um Valarin, com o intuito de entrar neste complexo e lucrarem com as descobertas.

Estamos aqui esperando eles terminarem a escavação. O seu caminho será nossa saída, e devemos avisa-los que não há riquezas aqui. Só morte, silencio e loucura esperam aqueles que invadem esta necrópole.

This entry was posted on sexta-feira, março 25, 2016 at 15:22 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

1 comentários

Como sempre, ótimo texto!

27 de março de 2016 10:15

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